Editorial – A eleição da Mesa Diretora na Assembleia de Rondônia e a possível volta do método antirrepublicano de Valter Araújo

Editorial – A eleição da Mesa Diretora na Assembleia de Rondônia e a possível volta do método antirrepublicano de Valter Araújo

Há oito anos o Poder Legislativo não passa por uma disputa tão acirrada pelo comando da Casa

Porto Velho, RO – Há oito anos, especificamente em fevereiro de 2011, o todo-poderoso Valter Araújo, eleito deputado estadual no ano anterior em primeiríssimo lugar pelo PTB com 22.186 votos, à frente inclusive do até então considerado campeão Zequinha Araújo, fora conduzido à Presidência da Assembleia Legislativa de Rondônia (ALE/RO).

Araújo bateu o grupo liderado pelo ex-prefeito de Ji-Paraná, Jesualdo Pires, candidato atrelado às raias do governo emedebista de Confúcio Moura à ocasião do primeiro mandato do ex-chefe do Executivo estadual, este eleito senador da República em 2018.

Foi a última vez que o Estado acompanhou eleições internas extremamente acirradas no Poder, aliás, é preciso relembrar, a história recente nos remete a métodos completamente antirrepublicanos patrocinados tanto pela chapa governamental quanto através da patota dissidente capitaneada por Araújo.

O recurso estratégico de Valter consistia em esconder deputados já cooptados à sua base a fim de blindá-los das investidas da turma do Palácio Rio Madeira. Para isso, providenciou o aquartelamento dos aliados em uma espécie de hotel fazenda, no Amazonas. Não foi uma abordagem autêntica: Valter aprendeu com dois ex-presidentes, Natanael Silva, que confinou deputados em uma fazenda de Ariquemes, e Carlão de Oliveira, eleito com a mesma prática. 

Parlamentares e ex-deputados partícipes da logística dizem até hoje que não houve negociata com promessas de privilégios no Legislativo nem teria corrido dinheiro aos adeptos do bloco vencedor – uma versão que nem incautos mais ingênuos conseguem engolir: um agente público avesso a investidas espúrias não precisa refugiar-se em matas fechadas a quase mil quilômetros de distância do seu local de atuação só para não ceder a pressões financeiras.

A verdade é que a tática do esconderijo perpetrada pelo petebista funcionou e seu pessoal, finalmente, chegou ao poder. E como todo mundo já sabe, veio a Operação Termópilas, a subsequente cassação de Valter Araújo, a fuga do ex-deputado, sua prisão e a exposição de escândalos de corrupção no seio administrativo da gestão Confúcio Moura.

Como o Regimento da Casa de Leis permite a realização das eleições da Mesa por dois biênios, a posse de Hermínio Coelho, vice de Valter, ocorreu naturalmente; a reeleição, portanto, já estava sacramentada quando o antecessor alcançou a Presidência.

O mesmo ocorreu com Maurão de Carvalho, eleito e reeleito no mesmo dia à unanimidade, sem oposição.


Hermínio Coelho e Maurão de Carvalho: o poder nas mãos sem disputa

Logo, os comandos de Hermínio Coelho, que recebeu o poder no colo e por acaso, e Maurão de Carvalho, que não enfrentou oposição durante a eleição da Mesa Diretora, distanciaram a população rondoniense da compreensão sobre as ferramentas espúrias utilizadas eventualmente em todos os rincões brasileiros para formalizar acordos políticos escondidos à penumbra interna do Legislativo.

Após um hiato de 96 meses, o que representa quase 3 mil dias, voltamos a um acirramento em termos de eleição para a composição da Mesa Diretora na ALE/RO, desta feita, inclusive, com representante direto do governo, o Sergento Eyder Brasil, deputado de primeira hora do governador Coronel Marcos Rocha, ambos do PSL do presidente da República Jair Bolsonaro.

Além dele espalham-se pelo tabuleiro Lebrão (MDB), Laerte Gomes (PSDB), Jean de Oliveira (MDB) e Alex Redano (PRB), prova de que o pleito será truncadíssimo ainda que nem todos estes nomes sejam confirmados como candidatos efetivos.

Previamente, sem maiores esforços cognitivos, chega-se à conclusão: para que algumas pretensões sejam refreadas será necessário amplo poder de convencimento por parte dos pleiteantes mais consistentes, e isso por vezes, sabemos, passa também por propostas de benefícios legais, ilegais, morais ou imorais, geralmente completamente paralelas aos anseios da sociedade.

Neste contexto, Brasil sai em desvantagem, pois, para manter a consistência tanto do seu discurso quanto da prosa apresentada por Marcos Rocha durante as eleições, não poderá, nem de longe, oferecer vantagens no Executivo a quem quer que seja, especialmente cargos e/ou benesses financeiras de quaisquer ordens, ainda que liberações privilegiadas voltadas aos apontamentos feitos por deputados através das tão contestadas emendas parlamentares.

O militar enfrentará dificuldades para andar na linha das promessas liberais enquanto candidato à Presidência da Casa de Leis, incontestavelmente.

Agora, o ideal seria se as composições arregimentassem os votos dos deputados estritamente ancorados à realidade, às necessidades vocalizadas pelo povo, esmerando-se no ofício com olhos para o futuro sem esquecer as consequências do passado.

Eyder Brasil, Lebrão, Laerte Gomes, Jean de Oliveira e Alex Redano precisam entender que a figura de Valter Araújo os espreita através do retrovisor do progresso; flertar ou não com os métodos antirrepublicanos do criminoso ex-presidente do Poder definirá de uma vez por todas se a tal mudança entoada pela nova safra de políticos trará reflexos bons ou ruins à sociedade.

Autor / Fonte: Rondoniadinamica

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