RD Entrevista – Daniel Pereira, a personificação de uma nova esquerda no Governo de Rondônia



Texto.:
Vinicius Canova
Fotos.: Gregory Rodriguez

Porto Velho, RO – Os pensamentos do vice-governador de Rondônia Daniel Pereira (PSB) podem confundir os leitores habituados a conceitos pré-formatados em relação à política e ideologias. O homem público, confessadamente de esquerda, não teme admitir seus posicionamentos e deixa claro que, mesmo sob pena de arriscar futuras eleições, não os esconderia.

“Prefiro perder uma eleição a perder minha identidade”, diz sem titubear.

Por outro lado, numa visão mais progressista dificilmente apresentada por políticos detentores de rótulos direita–esquerda, a franqueza pode colocá-lo na alça de mira de ambos os lados ao reconhecer, por exemplo, admiração pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), a quem ajudaria a eleger caso seja candidato a presidente da República em 2018.

Nesta enésima edição de RD Entrevista, seção publicada exclusivamente pelo jornal eletrônico Rondônia Dinâmica, o político de 51 anos que já foi vereador de Cerejeiras; candidato a prefeito; deputado estadual por duas vezes e atualmente integra ativamente a gestão Confúcio Moura (PMDB), abre o jogo e expõe a veia sindicalista que o trouxe até aqui.

Pereira também coloca fim nas especulações sobre a possibilidade de suceder o chefe do Executivo:

“Eu só não vou ser candidato a governador”, aponta.

E ainda:

A história de um ex-prefeito do interior de Rondônia que se rebelou contra chantagens promovidas por vereadores: o que esse relato pode ensinar sobre a relação entre Executivo e Legislativo? A luta pela reintegração dos servidores demitidos pelo ex-governador Bianco; o que pensa sobre Lula; especulações sobre articulação para ser conselheiro do Tribunal de Contas (TCE/RO) e a opinião a respeito da gestão do correligionário Mauro Nazif frente à Prefeitura de Porto Velho, além de muitos outros temas.


Pereira rechaça quem se filia a determinado partido, registra candidatura e fala que não é político 
Foto.: Gregory Rodriguez (Rondônia Dinâmica)


Perfil e trajetória

Daniel Pereira nasceu no dia 20 de junho de 1965 em Luziânia, distrito de Campo Mourão no Estado do Paraná. Prestes a completar 52 anos, é casado e tem três filhos. É professor reconhecido pela atividade sindical frente ao Sindsef (Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Estado de Rondônia). Foi vereador por Cerejeiras; duas vezes deputado estadual e atualmente é vice-governador do Estado de Rondônia.



Rondônia Dinâmica – Como o senhor chegou à atividade politica?

Daniel Pereira – Inicialmente, obrigado pela oportunidade. Bom, sou paranaense de nascimento e fui trazido ao Estado de Rondônia 1977 quando minha família veio para cá. Chegamos, inicialmente, ao Município de Vilhena, distrito de Colorado. Depois, em 1979, fomos ao que hoje é o Município de Pimenteiras, mas antes era Cerejeiras. Então fiz várias mudanças permanecendo no mesmo local. Comecei como professor na área rural em 1981. Isso evoluiu. Acabei fundando a Associação Cerejeirense de Professores lá por 1983 ou 84 e já entrei fazendo parte da diretoria.

RD – E a vida sindical?

DP – Pois é. Os sindicatos só foram autorizados a partir de 05 de outubro de 1988 com a nova Constituição. Até essa data os servidores públicos eram proibidos de se sindicalizar.



RD – E o processo de formação do Sintero?

DP – Foi um processo histórico. Eu fiz parte da Associação Cerejeirense de Professores, como disse, e em 89 fundamos o Sindicato dos Trabalhadores em Educação, o Sintero, em Ouro Preto d’Oeste. Uma equipe de cinco pessoas assinou o manifesto para criação do sindicato estadual. Até então havia gente que defendia a criação de um sindicato só de professores e também aqueles que queriam a instituição de vários sindicatos. Na verdade eram as associações que existiam em vários municípios que queriam se constituir como sindicato. Nós conseguimos convencer a categoria de criar um único sindicato. Então houve uma comissão que lançou o manifesto de fundação de um único sindicato para todos os trabalhadores em Educação, não só os professores. Professores e demais profissionais da área da Educação, merendeiras, vigias, enfim, todo conjunto das pessoas envolvidas, desde quem recebe o aluno na porta da escola até à diretoria dos colégios. E o sindicato foi fundado em fevereiro de 89 em Ouro Preto, como já disse.

RD – Quem foram os signatários do manifesto de criação do sindicato?

DP – Eu, Daniel Pereira, o professor David Nogueira, a professora Linete Ruiz, o hoje advogado Delmário Santana e o Roberto Sobrinho, ex-prefeito de Porto Velho, então presidente da Associação de Professores da Capital.

RD – E os mandatos?

DP – Em 1988 fui candidato a vereador. Até 1987 nunca havia sido filiado a partido algum. Minha comunidade fez uma escolha de um candidato e eu acabei sendo o indicado. Em 1992 fui candidato a prefeito; eleito deputado estadual em 1994, reeleito em1998; candidato a deputado federal em 2002, quando perdi a eleição e estou hoje como vice-governador. Fui fundador do Sintero, o Sindicato da Educação, e os últimos seis anos passei como presidente do Sindsef.  Na verdade eu era pré-candidato a deputado federal, escolhido em convenção para tentar ocupar uma vaga na Câmara Federal na última eleição, mas circunstâncias do destino me fizeram ser candidato a vice-governador e cá estamos.

RD – Na vida político-partidária, quais os trabalhos mais importantes que o senhor desenvolveu?

DP –  Tivemos uma série de atuações: fui vereador em Cerejeiras e nós conseguimos, na época, ajudar o município. A nossa intervenção ajudou a reduzir drasticamente a despesa do Poder Legislativo. Fizemos um trabalho intenso de fiscalização do Poder Executivo, que é obrigação do Poder Legislativo. Ajudamos a criar procedimentos e eu já era militante da área do serviço público ligado à Educação na época, tanto é que o Município de Cerejeiras há muito tempo, inclusive na gestão em que eu era vereador, instalou o primeiro sistema municipal de educação.

RD – Quem era o prefeito à época?

DP – Foi um trabalho do prefeito Rosalino Baldin, mas nós ajudamos a articular isso no meio rural. Passei oito anos na Assembleia Legislativa (ALE/RO) e tem alguns benefícios conquistados em prol dos servidores públicos de autoria nossa. O Auxílio-Saúde dos nossos servidores, que todo mês recebem uma pequena verba, foi meu mandato que ajudou a construir. E isso tanto para os civis quanto para os militares. O primeiro deputado que defendeu o processo de gestão democrática, proposta do Sindicato da Educação, fui eu que trabalhei na ALE/RO.

RD – E isso alcançou o Estado de Rondônia depois?

DP – Fico feliz que depois o governador Confúcio Moura (PMDB) o tenha implantado como política de governo.

RD – E os outros trabalhos?

DP – Fui o primeiro deputado estadual a defender no Brasil investimento mínimo obrigatório na área de Saúde, tanto é que a Emenda Constitucional nº 7 do Estado de Rondônia foi iniciativa minha, aprovada por unanimidade no Legislativo, em que pese o governo da época, comandado à ocasião pelo atual senador Valdir Raupp (PMDB) tenha entrado com uma ADIn [Ação direta de inconstitucionalidade] por vício de origem. Mas nós conseguimos demonstrar o pensamento que tínhamos e o que queríamos naquela época e hoje é uma realidade.

RD – E na Educação?

DP – O processo de escolarização de merenda, que era uma roubalheira, nós que propusemos. Era um escândalo, né? Primeiro era o governo federal que comprava e distribuía para o País todo, chegava às escolas lá pelo mês de agosto ou até mesmo em setembro, e só havia pela frente mais uns dois meses de aula e aquele tanto de merenda tinha de ser consumida naquele período.

RD – E o que acontecia com o alimento?

DP – Havia mais merenda “enterrada” do que  consumida pelas crianças. Então passou a vir para o Estado, mas era comprada nas capitais, no nosso caso aqui em Porto Velho, e eram levados mais em consideração os interesses empresariais do que os das crianças. Então fizemos um trabalho e isso redundou na escolarização da merenda. Ajudei, como deputado estadual, a criar o primeiro projeto que formou mais de seis mil professores aqui. O Estado teve de pagar metade disso. Nossa proposta era que o Estado pagasse tudo, mas acabou pagamento só a metade. Foi um grupo muito grande de professores beneficiado. Ajudou a melhorar a qualidade do ensino.

RD – E o projeto de repasse diretamente às escolas?

DP – Trabalhamos também a questão dos programas do repasse dos recursos às escolas. Então o Governo do Estado começou a passar o dinheiro para “dentro” das escolas para que pudessem fazer pequenos reparos. Para que não tivessem de recorrer à Seduc [Secretaria de Estado da Educação] toda vez que tivessem de trocar lâmpadas e trocar telhas. Então, enfim, foi uma série de ações que nós fizemos ao longo do tempo enquanto deputado estadual.



RD – E na função de vice-governador, o que se destaca?

DP – Como vice- governador a gente tem tido uma experiência bastante interessante. No começo do mandato o governador me chamou e falou: “Olha, vamos fazer algo diferente aqui. Você não vai assumir secretaria alguma, mas tem liberdade para ajudar a trabalhar em todas elas”. Lembrando que as funções de vice-governador são muito restritas. Tanto é que a Constituição Estadual deve dispor um ou dois dos seus artigos apenas para tratar sobre vice-governador e suas funções.

RD – E existe essa liberdade mesmo?

DP – Claro. Eu tenho tido uma experiência muito boa. É óbvio que eu tenho juízo, então tudo o que vamos fazer a gente discute antes com o governador. Ou, quando há alguma coisa urgente, levamos logo em seguida ao conhecimento dele. Mas tenho tido sim a felicidade de atuar no setor produtivo, por exemplo, como no ano passado onde pegamos a nossa feira agropecuária, a Rondônia Rural Show e a lançamos em Brasília. É bom relembrar que a nossa feira é, atualmente, uma das dez maiores feiras agropecuárias do País. Então este ano nós fizemos todos os atos preparatórios para o governador apresentar o nosso Estado em São Paulo, na Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo].

RD – E o que mais?

DP – Fizemos todo um trabalho no ano passado quando visitamos mais de 30 embaixadas, levamos 35 países diferentes para conhecer o Estado de Rondônia. Talvez hoje, tirando os Estados tradicionais do Brasil, tirando São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, que são os mais tradicionais, dos Estados mais novos, provavelmente o Estado de Rondônia seja hoje o mais conhecido no Planeta. E graças a esse trabalho que nós ajudamos a fazer. Temos aí uma série de intervenções que estamos praticando na área de Segurança Pública. Nessa relação do Brasil com a Bolívia nós estamos vivendo um momento de construção muito bom. E uma série de atuações aí que fizemos ao longo do tempo, seja como vereador, como deputado estadual e nesses dois anos e quatro meses como vice-governador.



RD – O senhor fala muito a respeito da batalha travada em prol dos servidores demitidos pelo ex-governador José Bianco. Como foi esse contexto e de que maneira ele afeta nos dias de hoje tanto a sua vida quanto a das pessoas prejudicadas à época?

DP – Acho que essa situação dos demitidos tem de ter uma leitura mais ampla. Às vezes o que a gente deve fazer, se você me permitir...

RD – À vontade...

DP – É uma reflexão a respeito do que é o Estado de Rondônia, um Estado muito novo, mas que já em 1995, quando o hoje senador Raupp assumiu o mandato de governador já enfrentou, “de cara”, três meses de folha atrasada e o governador que saiu, o governador [Osvaldo] Piana, além de não pagar os servidores concedeu um aumento de cem por cento.

RD – Por que o senhor acha que ele fez isso?

DP –  Para deixar bastante dificuldade para o governador subsequente. E isso foi se arrastando, o governador Raupp não conseguiu colocar as folhas em dia, e quando o Bianco assumiu, num contexto de mudanças políticas profundas no País, acabou redundando no processo de demissão. E nós entendemos que seria injusto isso, porque eram pais e mães de família que de uma hora para a outra, anoiteceram empregados e amanheceram demitidos.

RD – Como ficou sabendo do ocorrido?

DP – Eu fiquei sabendo disso no Paraná. Estava viajando. Aliás, me deslocando do Paraná para Rondônia. Eu estava em Cuiabá quando por acaso, antes de começar a viagem, liguei a televisão e estava passando a informação sobre as demissões em Rondônia.

RD – E o que fez?

DP – Não fui sequer à casa dos meus pais e nem na do meu sogro, que estavam em Cerejeiras. Minha esposa foi para lá e eu vim direto para Porto Velho para acompanhar essa situação e ficar junto com os servidores, né? O que nós procuramos foi um meio de resolver a situação desses dez mil pais e mães de família. Foi um sofrimento muito grande! Estivemos juntos com eles em todas as situações que passaram.



RD – E qual foi seu papel na reintegração desses servidores?

DP – Embora não tenha sido eleito deputado federal em 2002, cargo ao qual fui candidato, acabei ficando na condição de 1º suplente, mas mesmo assim quem ajudou a fazer a articulação com o próprio governador eleito em seguida, o Ivo Cassol, criando um ambiente para que esses servidores fossem reconduzidos novamente, fui eu. Dei minha contribuição dentro daquilo que podia fazer naquele momento.

RD – Mas o que o senhor pensava sobre o agir do ex-governador Bianco?

DP – Talvez possa até entender uma atitude pragmática do então governador Bianco, mas eram dez mil pais de família demitidos, não é? Em que pese esse contexto, tenho um respeito profundo pelo Bianco. Porque ele fez um bom trabalho de recuperação do Estado de Rondônia e provavelmente nós somos o que somos hoje por causa de alguns trabalhos de base que ele fez. Tirando esse processo de demissão a nota da gestão dele seria a máxima. Tenho muito respeito pelo trabalho dele. Até mesmo nessa situação dos demitidos eu aprendi a respeitá-lo.

RD – E de onde vem esse respeito?

DP – Vem do fato de geralmente o homem público, quando acerta, comemorar o mérito como dele. E quando erra, imputar demérito aos outros. E o Bianco nunca jogou nas costas de ninguém a questão das demissões. Ele sempre disse: “Eu sou governador e a responsabilidade é minha!”. Então eu tenho profundo respeito por ele, mas nem por isso deixamos de lutar e trazer de volta os servidores demitidos.

RD – Como o Estado já vinha num contexto de não conseguir pagar as contas e alguém teria de tomar uma decisão drástica, seria como dizer que as demissões foram uma espécie de “bomba” que caiu no colo do ex-governador Bianco? Alguém teria de demitir esses servidores mais cedo ou mais tarde?

DP – Não vou dizer que foi uma “bomba” que caiu no colo dele porque a gente não pode esquecer que o Raupp também pegou o Estado, como já disse, com três folhas de pagamento atrasadas. E folhas com valores duplicados! Então, na verdade, o Raupp tinha seis folhas de pagamento em atraso. Ele poderia ter feito a escolha naquele momento de tentar zerar tudo, mas não fez isso.  Hoje isso não ocorreria. A nossa legislação evoluiu e o gestor, seja ele municipal, estadual ou federal, não pode aumentar determinadas despesas em quantidade específica de meses antes das eleições e nem depois. Ou seja, não se tem mais atitudes irresponsáveis como essa. Nossa legislação evoluiu, mas naquela época era permitido. Então ele já pegou uma situação bastante complexa que vinha  de uma administração difícil.

RD – E a partir daí as coisas começaram a melhorar?

DP – E graças a Deus que o Estado de Rondônia tomou outro rumo. Em menos de 20 anos de criação do Estado de Rondônia, um Estado promissor, com potencial que a gente tem, já éramos um Estado inviabilizado financeiramente. Um Estado que não consegue pagar seus servidores não tem o mínimo de futuro. Então, dali pra cá, as coisas evoluíram, melhoraram bastante. Pelo menos deixamos de ser um Estado que não tem sequer condições de pagar seus servidores. E não deixamos de evoluir, crescer e melhorar.  Temos uma prestação de serviço expressiva. Não temos hoje o Estado ideal, mas temos um Estado muito promissor. Houve um dado momento da história que ocorreram mudanças de comportamento e as coisas se ajustaram. Estamos vivendo um momento muito bom hoje. Agora, se isso não tivesse sido revertido num dado momento, o destino nosso seria muito ruim.



RD – As demissões afetaram o processo de transposição desses servidores?

DP – Juridicamente, creio que não. O que está acontecendo no processo de transposição? Estão analisando caso a caso. E aí qualquer situação de discrepância, que traga prejuízo ao servidor, os próprios sindicatos cuidam muito bem disso. O Estado tem dado apoio muito grande até porque tem interesse em levar o máximo possível de servidores à União. A nossa Procuradoria-Geral, na figura do Dr. Luciano, que cuida disso junto com o pessoal de Recursos Humanos, tem dado todo apoio para os servidores.

RD – Então não há prejuízo?

DP – Não há nenhuma situação específica a qual o processo de demissão esteja prejudicando alguém. O que prejudica a transposição é que o governo federal não tem interesse nenhum em aumentar as despesas, o que é até compreensível. Por outro lado, há uma Emenda Constitucional que concede o direito a esses servidores. E esse direito beneficia o Estado também. Então se juntam os sindicatos, servidores e o Governo do Estado para que possamos correr atrás dessa questão comum que é de interesse de todo mundo.



RD – Para encerrar a questão dos demitidos, em 2014 o senhor publicou um relato em seu Facebook, que pode até ser denominado como desabafo, questionando o paradeiro dos homens públicos de Rondônia no episódio dos demitidos.  Um jornalista chegou a publicar  que o senhor mencionou até mesmo o governador Confúcio Moura, dizendo que ele não estava entre os defensores dos demitidos. Isso criou algum problema político entre vocês?

DP – Não, não... De forma alguma. Acho que o governador nem tomou conhecimento disso. O governador é um homem preparado para grandes coisas, não fica se preocupando com minúcias de Facebook de ninguém. E outra: naquele momento eu estava travando um embate falando sobre quem era e onde estava. Fiz questão de dizer que estávamos o então deputado Mauro Nazif e eu, além de outros parlamentares.



RD – Quem mais lutou pelos demitidos?

DP – Não éramos só nós. Havia o então deputado Everton Leoni, que nos ajudou bastante, a deputada Sueli Aragão, idem, a deputada Milene Mota, enfim... Agora, os caras que tinham... Vamos chamar assim... Mais natureza de sindicalista éramos o deputado Mauro e eu. Sempre fomos voltados às questões dos servidores. Então o que eu quis dizer era que nós estávamos ali. Mas aí alguém que “era do outro lado”, tentando diminuir a importância disso, tentou criar uma confusão dizendo que o  governador Confúcio Moura não estava lá brigando pelos servidores.

RD – Mas ele estava, afinal?

DP – O governador naquele momento era deputado federal. O palco de disputa, de intervenção política dele não era o Estado. E convenhamos: o governador Confúcio Moura não tem perfil de político briguento. Ele tem o perfil de político conciliador, capaz de pegar situações extremamente adversas e enfrentá-las dentro de um princípio de conciliação. Então, nisso daí, eu estou tentando melhorar e aprender a ser mais parecido com o governador. Até porque é uma fórmula que dá certo. De 1994 para cá, quando ele começou a ganhar eleições, não perdeu mais. Acho que as pessoas que agem da maneira como ele age, com mais prudência, com mais cautela, têm mais sucesso do que os mais estabanados do que eu.

RD – Então isso foi usado para atrapalhar a campanha?

DP – Naquele momento estávamos numa situação de disputa eleitoral, principalmente no segundo turno onde havia algo bem pontual, bem marcada em relação ao nosso adversário naquele momento, o ex-senador Expedito Júnior (PSDB). Fora disso somos amigos, tenho muito respeito por ele. Mas era a disputa pelo mesmo objeto. Então dentro desse contexto tentaram criar essa situação desconfortável entre o governador e eu, mas não funcionou.



RD – Outra situação que veio à tona no mesmo ano, ainda antes da reeleição de Confúcio, foram as declarações que o senhor concedeu pregando demissão de comissionados que não estivessem apoiando o governador na campanha. O senhor mantém seu posicionamento, acredita que servidor comissionado tem de ir além do ofício estatal e se engajar nas campanhas?

DP – Veja bem... Primeiro isso foi colocado no sentido privado. Estávamos fazendo uma reunião e eu nunca tive a oportunidade de me manifestar sobre isso. Estávamos reunidos com um grupo de pessoas nossas, somente nosso pessoal. E tratávamos sobre a questão de uma campanha que estava extremamente difícil. Não tenho pudor algum de dizer o que penso em relação a cargo comissionado.

RD – O que pensa sobre os cargos comissionados?

DP – Sempre defendi que a gente tem de ter funcionários de carreira, tanto é que nunca ocupei cargo comissionado, exceto seis meses e é uma experiência que não quero mais repetir. Temos de privilegiar os funcionários públicos de carreira. Agora, aquele cara que ocupa um cargo comissionado sabe que está ali por conta daquele governo que está indicando ele. E se aquele governo está indicando ele, ele tem de ter a consciência de que o dia que aquele cidadão sai, perde o mandato, corre o risco de perder o emprego.

RD – O que suscitou o comentário, então?

DP – O negócio era muito complicado e talvez tenha ocorrido porque o governador é uma pessoa extremamente democrática. Havia mais gente dentro do governo fazendo campanha contra o governador do que a favor! A nossa situação era mais de insatisfação com pessoas que estavam lado a lado junto com o governador, que foram atendidas, beneficiadas dentro do governo e agiam daquela maneira contra ele. O nosso descontentamento também era com o próprio adversário à época, também beneficiado, ajudado. O governador inclusive tem problemas acumulados ao longo do tempo envolvendo ações judiciais.

RD – Então faltou engajamento?

DP – As pessoas poderiam ter sido mais solidárias. Eu era candidato a vice, mas já tinha noção do que o governador havia feito pelo Estado de Rondônia. E hoje se eu tivesse de defender de novo a candidatura do Confúcio, indiferentemente de eu ser candidato ou não, faria tudo com a vontade de ganhar. Mas não pela questão de querer aparelhar o Estado, se beneficiar. Muito pelo contrário, o faria de uma maneira desprendida. Vamos começar pelos fatos: o governador Confúcio Moura chegou ao cargo e a primeira-dama não é uma “sanguessuga” que vive às custas do Estado. Ela continua como médica em Ariquemes, assim como minha esposa, que sempre foi e continua enfermeira dentro do serviço público.

RD – Seus familiares não se beneficiam do seu cargo no governo?

DP – No exato momento em que estou concedendo a entrevista [realizada na quinta-feira, dia 11, às 16h30] pra você, se você ligar para ela, ela irá te atender lá no Posto de Saúde onde trabalha. O único irmão que eu tenho, que é servidor público, professor era e professor continua. Estava na sala de aula, continua na sala de aula. Tenho duas filhas que são servidoras públicas concursadas e, no mesmo local de trabalho que estavam quando eu assumi o mandato, permanecem até hoje e quando sair elas continuarão por lá ou irão evoluir por mérito próprio. O governador Confúcio Moura, num Estado onde os homens públicos costumam utilizá-lo mais para se beneficiar do que à população, foi o único chefe do Executivo a ter coragem de acabar com a própria aposentadoria de ex-governadores. Então a resposta é bem clara: é claro que não!

RD – E o fez por quê?

DP – É característica dele. Ele assumiu o mandato no começo de 2011, quando foi lá para o mês de maio já estava publicada a lei que extinguiu a aposentadoria vitalícia a ex-governadores. Então nossa defesa no sentido de querer ganhar a eleição, no episodio da crítica aos comissionados, não era para tirar proveito da Administração Pública, muito pelo contrário: a gente entendia e continuamos entendendo que queríamos ganhar a eleição para fazer exatamente aquilo que estamos fazendo hoje. Nesse contexto, e é óbvio que estávamos num processo eleitoral, nossos adversários tentaram transformar isso mostrando o Daniel Pereira, o dirigente sindicalista, como alguém que persegue o servidor.

RD – E o senhor não perseguiu?

DP – Basta voltar no tempo e perguntar: você não encontrará uma pessoa que trabalhou comigo ao longo desses 35 anos que tenha algum problema em relação a mim. Mesmo os que trabalharam sob minha área de influência. Passei os últimos anos como dirigente do Sindsef, os seis últimos como presidente. E eu nunca tive o menor dos problemas com qualquer um dos servidores. E lá no sindicato, inclusive, em que você está longe da questão dos órgãos públicos, já disputamos várias eleições. Temos mais de cinquenta funcionários e só apoiou a gente quem quiser apoiar. Quem não quis apoiar, não houve cobrança. Até porque o servidor não está vendendo a força de trabalho dele.

RD – O senhor acredita, então, que estava errado ao expor daquela forma?

DP – Confesso que sim. Estava errado naquela situação, em que pese desde quando o Brasil é Brasil todo mundo que ocupa cargo de confiança, infelizmente, e essa é a verdade, está lá muito mais por aproximação política do por qualidade técnica. As pessoas não estão ali pelo o que elas sabem fazer. Isso, infelizmente, se reproduz até hoje. É a primeira situação. É uma situação errada no País inteiro e eu, naquele momento, embalado na questão da campanha, agi de maneira equivocada também.

RD – Houve retaliação aos comissionados que não participaram da campanha?

DP – Essa é outra questão importante: o governador Confúcio Moura jamais exonerou uma pessoa sequer pelo critério de natureza política. O governador não saiu se vingando das pessoas – mesmo as que estavam no governo e trabalhando contra ele – dentro de um processo eleitoral e nem depois disso. O mesmo vale para o ex-prefeito Dr. Mauro Nazif, que jamais agiu assim.

RD – Dá pra tirar uma lição de tudo isso?

DP – O que nós temos de bom nesse processo todo? Aqui no Estado de Rondônia, diferentemente de todos os cantos do País em termo de gestões, estamos vivendo uma experiência ímpar em que o governador determinou que os principais cargos comissionados fossem preenchidos de acordo com as características técnicas das pessoas, provendo uma seleção de forma que os cidadãos deixem de entrar no governo porque são amigos da autoridade política de qualquer nível. Então a competência e as qualidades serão os critérios mais apropriados para o preenchimento desses cargos. Aquele episódio, então, foi importante para nos permitir apresentar essa nova forma de ser. Esperamos que daqui para frente, tanto nas administrações municipais quanto nas administrações estaduais ou federais o critério de nomeação das pessoas seja muito mais técnico do que político. Não podemos fugir da realidade: o ideal é promover uma nomeação em que você preencha primeiramente critérios técnicos e em seguida os políticos. Acontece que em nosso País sempre se nomeou primeiro pelo critério político e o técnico sempre é largado para depois.



RD – O governador Confúcio Moura não esconde o seu apreço em relação ao correligionário Michel Temer, hoje presidente e considerado por muitos como um comandante ilegítimo no País. Confúcio é inclusive favorável tanto à Reforma Trabalhista quanto à da Previdência. Com isso, no seu caso, existe um conflito entre o Daniel Pereira, vice-governador e o Daniel Pereira, sindicalista?  Como o senhor se posta diante destas questões políticas vivenciadas no Brasil?

DP – Esse tema nunca foi objeto de troca sequer de duas palavras entre o governador e eu. Tenho profundo respeito pelo o que o governador faz e pensa e também pelo jeito que age. E a recíproca é verdadeira. Nunca deixei de agir da maneira que tenho de agir, e o governador, evidentemente, faz aquilo que ele entende como o melhor caminho a ser tomado de acordo com suas convicções. Lembra quando eu disse que o governador é uma pessoa extremamente conciliadora? O governador enquanto a ex-presidente Dilma comandava a República foi extremamente respeitoso e parceiro dela. Tanto é que conseguiu fazer, podemos citar, por exemplo, a questão do projeto de habitação à nossa população. Talvez o Estado de Rondônia tenha sido o mais beneficiado com isso. E o governador nunca deixou de citar isso em várias oportunidades.

RD – E o governo Temer?

DP – Agora, com relação ao atual presidente da República, é um processo consolidado. O governador não era senador, não era deputado federal e não foi ele a criar as condições do impeachment. Se dependesse dele, a presidente Dilma não teria saído. E a partir do momento que o Michel Temer assume o comando do País não é o governador de Rondônia que irá comprar briga com o presidente da República. O governador, responsável que é por um milhão e setecentos mil habitantes, que é a população de Rondônia, indiferentemente de quem seja o inquilino do Palácio do Planalto, teria de buscar a construção de uma boa relação política. E o governador tem outros motivos também para isso. O governador foi deputado federal durante dez anos e, em boa parte desse período, o Michel Temer era presidente da Câmara dos Deputados e é amigo dele. Então a gente tem de colocar as coisas nesses termos. O governador não tinha de trazer para si uma guerra sobre a legitimidade ou ilegitimidade do presidente Temer.

RD – E as reformas?

DP – Eu me reservo em relação às questões sindicais, uma vez que tenho a seguinte consciência: eu estou vice-governador. Mas da mesma maneira que um dia eu fui durante oito anos deputado estadual e, quando acabou o mandato, retornei ao meu local de serviço na condição de servidor público, ocorrerá o mesmo em 2019. E há algumas questões que não têm como a gente deixar de questioná-las. Quando entrei no serviço público eu tinha a perspectiva de me aposentar com 47 anos. É verdade... Com 30 anos de serviço e eu me aposentaria muito novo. Ao longo desse período tivemos duas alterações e estamos agora diante de uma terceira. Eu sou bem pragmático em relação a isso: a primeira mudança foi lá por 1998 com o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que estabeleceu a idade mínima dos servidores. O tempo de contribuição permaneceu o mesmo, mas houve o estabelecimento da idade mínima. Então minha expectativa de aposentadoria pulou de 47 para 53 anos. Como fiquei muito tempo fora da sala de aula acabei perdendo o direito à aposentadoria especial, modalidade que eu defendo, mas somente para os professores que efetivamente estão em sala de aula. Porque é extremamente estressante dar aula. Mas eu, como era militante do PT e não gostava do Fernando Henrique Cardoso, politicamente falando, pensei: “Bom, o meu amigo Lula irá fazer algo melhor, mudará isso para mim”.

RD – E ele mudou?

DP – O Lula realmente mudou: ele aumentou a expectativa de aposentadoria de 53 para 60 anos! Então outra coisa que a gente não deve fazer de forma alguma é tentar partidarizar o processo de reforma. A reforma está acontecendo com o Temer, mas se não acontecesse com ele, ocorreria com o próximo presidente. Porque se o PT tivesse dado continuidade ao governo, o partido também teria promovido essas mudanças, tanto é que o presidente Lula já o fez anteriormente lá pelo ano de 2003 ou 2004 por aí. Isso é tranquilo... Agora, eu não posso, como servidor público, sendo extremamente prejudicado com isso, porque veja bem... Já fui vereador, deputado estadual em duas oportunidades, acabei com aposentadoria de deputado estadual lá na ALE/RO e hoje como vice-governador fico muito feliz porque posso, por alguma razão, ser o sucessor do governador Confúcio Moura, mas não existe mais a história de o atual governante ir embora e a população ter de pagar para ele o resto da vida. Fico feliz que a Justiça tenha acabado inclusive com a tal da assessoria militar, que os ex-governadores pensavam que a população tinha de continuar pagando para eles a vida toda.

RD – E como vê agora o processo de aposentadoria?

DP – Agora, se eu não quero nenhum tipo de mordomia pós-mandato, já que a gente não quer nem agora no exercício do mandato, pelo menos queremos um pouco de respeito em relação à nossa vida como funcionário público. Como eu dizia pra você, já tenho 35 anos de serviço, de contribuição. Eu vou passar aos 60 anos e, com essa nova reforma, não sei... Provavelmente eu seja enquadrado na faixa aí dos 65 anos. Outro dia eu conversava com minha filha, que está começando como servidora, está com dois anos que ela está no serviço público, e ela olhava para mim e dizia: “Olha, eu não sei o que irá acontecer comigo. Acho que eu não tenho disposição física para trabalhar aí 40 anos para ter direito à aposentadoria em tempo integral”. Aí eu respondi: “Filha, nós temos de dar um jeito de parar essa situação porque, no meu caso, aumentaram 13 anos de contribuição. Se aumentarem mais 13 no seu caso, você pulará de 65 para 78. Mas eu não estou preocupado com você. Estou preocupado é com meu neto, que irá se aposentar com praticamente cem anos!”. ?  Então é esse tipo de coisa que não podemos deixar de discutir...

RD – Mas a Previdência não precisa ser reformada de um jeito ou de outro?  

DP – É preciso ter consciência que o sistema de Previdência não é como se fosse uma árvore maravilhosa e milagrosa que você consegue buscar tudo aquilo que precisa e seus frutos jamais serão exauridos. A gente tem a consciência de que o sistema previdenciário é um sistema que você contribui e é justo que traga de volta aquilo que pagou. Eu, por exemplo, contribui para a Previdência a vida toda com salário de professor, quero me aposentar com salário de professor, não acho justo o cidadão contribuir ao longo de 35 anos, 25 deles com a menor contribuição possível, por uma circunstância do destino, que é mérito dele, passa num concurso de ponta no serviço público, aí ele vai pra aposentadoria com o máximo daquilo, tendo um benefício, ao final de tudo, a qual ele não contribuiu! Então, para mim, o sistema previdenciário é um sistema de poupança. E só é justo que você receba aquilo que contribuiu.

RD – O que não ocorre hoje, não é mesmo?

DP – Não, não ocorre e precisa ser mudado. Isso é mais importante do que mudar a idade das pessoas. Porque se você só levar aquilo que efetivamente contribuiu, o sistema se equilibra. Agora, outra situação também, e eu ouvi isso de um teórico do Partido dos Trabalhadores, Marcio Pochmann, num evento que participei na CNTE [Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação] em 2014 lá em Brasília. O Márcio Pochmann dizia o seguinte: “O mundo está mudado. Hoje as pessoas vivem mais. O problema não é o fato de as pessoas viverem mais, mas sim que está nascendo menos gente!”. Então o controle de natalidade no Brasil é algo presente, as cidades, pouquíssimas cidades nossas, tem aumento de população. Está diminuindo a população. Neste ano, e já é um fenômeno nos últimos anos, na maior parte dos municípios de Rondônia, a matrícula escolar é menor do que nos anos anteriores. E não é porque as pessoas não estão indo para as escolas, é porque não tem mesmo, está nascendo menos gente do que nascia há vinte anos. Por que estou dizendo isso? Porque nesse sistema, se tenho entrada de gente no mercado de trabalho menor do que as pessoas que tenho para sustentar, é mais um problema gerado. Então indiferentemente de quem seja o presidente da República algumas reflexões e mudanças no sistema previdenciário tem de acontecer, isso é indiscutível!

RD – E a Reforma Trabalhista?

DP – A Reforma Trabalhista é extremamente complexa. Eu vi algumas coisas que aconteceram na Reforma Trabalhista que acho positivas. Algumas nem tanto, né? Você tem uma situação que pode ser colocada como benefício para o trabalhador. Aliás, há duas situações. O trabalhador que pega o veículo dele, ou utiliza um ônibus e vai ao local de trabalho, só tem contada a atividade como funcionário a partir do momento da entrada em serviço. Era assim... A proposta é mudar isso. Mas se o empregador coloca um ônibus de boa qualidade, que pega o trabalhador em casa para levar à empresa, o que irá ocorrer? Passa a contar, e é uma construção, não é fruto da lei, é uma construção jurisprudencial, que passa a contar como se ele estivesse no ambiente de trabalho desde o momento em que ele saiu de sua casa. Para o trabalhador isso é maravilhoso!

RD – E para o empresário?

DP – Pois é. É preciso refletir: será que para a empresa isso está correto? Porque a empresa não está recebendo isso como mão de obra. E não podemos esquecer que as nossas empresas, hoje, concorrem com empreendimentos do mundo todo. E as empresa daqui criam condições de competir no mercado internacional. A cada empresa instalada no Brasil há outra do mesmo grupo do outro lado do mundo fazendo a mesma coisa. Eu tenho muitos contatos e procurei estabelecer inclusive juízo de valor a respeito de como é a produtividade nas nossas empresas e nas empresas de outros países. Um familiar meu, inclusive, que é executivo da John Deere, disse o seguinte: “Olha, o empregado da John Deere americana ganha cinquenta por cento a mais do que o empregado da John Deere brasileira. Mas por uma série de fatores, principalmente pela qualificação de mão de obra, a produtividade do operário americano é maior do que a do brasileiro”. Resumo da ópera: eles pagam mais, mas o resultado para a empresa é melhor.  Então são fatores que tem de ser analisados e discutidos.



RD – O que pensa a respeito do imposto sindical?

DP – Vou ser bastante franco: é um negócio extremamente equivocado. Há mais de dez anos, e eu sou formado em Direito com especialização em Direito do Trabalho, escrevi um texto que é muito fácil de achar, basta procurar no Google com as palavras-chave “imposto sindical” e “Daniel Pereira”. Basta procurar que irá encontrar o artigo em questão, publicado inclusive no DIAP [Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar] e em outros órgãos importantes. O nosso posicionamento é contrário ao imposto sindical, que é um entulho da época do Getúlio Vargas, de uma Constituição importada, um modelo de proteção aos trabalhadores que era aquele adotado pelo estado totalitário do Mussolini. E isso foi mantido e é verdade que esse negócio mantém muitos sindicatos hoje. O Brasil tem uma proliferação beirando a 30 mil sindicatos.

RD – E o que deve ocorrer com o fim do imposto sindical?

DP – Se você acabar com o imposto sindical, pelo menos 25 mil entidades sindicais irão à falência e não farão falta a ninguém! Porque esses sindicatos são cartoriais, não são esses sindicatos que defendem os interesses do trabalhador. Por outro lado, tem gente que acha que se o imposto sindical terminar as entidades de lutas, aguerridas, deixarão de estar nas ruas e os sindicatos dos servidores públicos ficarão à mercê do patrão batendo a porta dele.   Ou mesmo que os sindicatos ligados à iniciativa privada irão deixar de reivindicar os direitos. Não irão coisa alguma!

RD – Como os sindicatos remanescentes irão sobreviver?

DP – Os sindicatos que são organizados com filiação e base não dependem do imposto sindical. Vou citar, como exemplo, o Sindsef. Acabei de sair como presidente do Sindsef onde fiquei por seis anos. Mas nunca pegamos um centavo de imposto sindical! Pelo contrário, o governo federal agora, o governo Temer, baixou um provimento, uma determinação versando que tem de descontar o imposto sindical de todo mundo! Nós do Sindsef nos manifestamos rejeitando o recebimento de imposto sindical. Aí chegaram para nós e disseram: “Não, mas se vocês quiserem será descontado e se não quiserem será descontado do mesmo jeito”. Porque na verdade parte do imposto sindical vai para o FAT [Fundo de Amparo ao Trabalhador]. Quando o governo federal deixa de cobrar o imposto sindical, que parte é destinada ao próprio governo, está incorrendo em renúncia fiscal.

RD – E aí pretendem fazer o que com o imposto?

DP – Abrimos uma conta para receber o tal do imposto sindical e, quando isso ocorrer, iremos fazer uma assembleia com nossos filiados para ver a destinação que iremos dar a esse dinheiro. O Sindsef tem 27 anos e nunca entrou um só centavo de imposto sindical em nosso sindicato e não precisamos dele. Isso porque temos 13 mil filiados que contribuem voluntariamente todo o mês para o sindicato. Então o sindicalista que faz o trabalho dele, um trabalho sério, não precisa se preocupar. Agora, por outro lado, não podemos deixar de verificar que não existem só sindicatos dos trabalhadores. Há os sindicatos das empresas. E que da mesma maneira têm de se organizar. Os sindicatos das empresas também têm de fazer isso, tendo suas contribuições. Porque afinal de contas tem de haver um sistema que garanta a sua sustentação econômica. Então a sobrevivência do sindicato não é imposto sindical, a sobrevivência do sindicato é ter credibilidade e garantir os seus filiados.

RD – Então o Sindsef irá sobreviver?

DP – Eu acabo de sair da direção do sindicato onde nós reelegemos o sucessor, e o meu sucessor fez 70% dos votos com nosso apoio de manhã, de tarde e à noite. Agora, não tivemos 70% do apoio porque fui eu que o apoiei. Tivemos 70% de apoio porque houve todo um conjunto de pessoas que reconhece o trabalho, o valoriza e se dedica. Se trabalha um ano inteiro sem se ganhar um centavo a mais ou diferenciado para que isso ocorra. É um sindicato em que só há duas pessoas liberadas. E não é o governo federal que paga o nosso salário. O governo federal paga o salário dos liberados e o sindicato devolve o dinheiro à União. Então não temos de ter medo de encarar esse tipo de situação. Em resumo, há alguns aspectos da Reforma Trabalhista que trarão prejuízos e outros, naturalmente, benefícios. Mas é um momento histórico que a gente está vivendo e temos de saber conviver com isso.



RD – O senhor chegou a ser denominado como “o vice-governador mais ativo que Rondônia já elegeu”. Como chegou a esse status?

DP – Não tenho essa avaliação. Até porque o Estado de Rondônia teve grandes vice-governadores. A gente começa lá ainda quando não tínhamos um Estado onde se elegia governador, a Drª Janilene [Vasconcelos de Melo], que foi vice-governadora do Jorge Teixeira, uma pessoa maravilhosa. Há o primeiro vice-governador de um gestor eleitor, Dr. Orestes Muniz, pessoa respeitadíssima que o ocupou o cargo durante o mandato do Jerônimo Santana. Exerceu uma função fantástica. Houve também o Assis Canuto,  um homem com profundo conhecimento do campo, dando uma contribuição muito grande para o governo Piana. Depois tivemos o Dr. Aparício [Carvalho], que foi vice-governador com quem convivi enquanto deputado estadual e desenvolvi uma grande amizade. Em seguida o Dr. Miguel de Souza, pessoa de uma contribuição fantástica. A estrada para o Pacífico que era um sonho virou uma realidade por conta de um trabalho fantástico dele. Depois tivemos a nossa querida Odaísa Fernandes, muito prestativa com uma vida toda dedicada ao serviço público. E tivemos o João Cahúlla, que fez um bom trabalho. Antes de mim, inclusive, o seu Airton [Gurgacz], que hoje é deputado estadual, deu a melhor contribuição de fidelidade ao Estado e de compromisso com o governador.

RD – E o senhor, como se enxerga na condição de vice?

DP – Talvez essa oportunidade que o governador me deu é que seja diferente. O governador não pegou o vice colocando-o em uma secretaria e dizendo: “Olha, deixa esse cara quieto lá. Porque se ele ficar quieto lá e não me incomodar, está de bom tamanho”. Provavelmente eu esteja tendo uma oportunidade que os outros candidatos a vice não tiveram. E a gente não pode esquecer também que hoje temos algo chamado mídias sociais, que no passado não havia.

RD – E a falta dessas mídias sociais prejudicaram seus antecessores?

DP – Por exemplo: o Miguel de Souza, por mais que se matasse de trabalhar, ou eram os meios de comunicação convencionais, os sites – poucos deles existiam – e não havia um nível de divulgação e exposição que existem hoje. Acho que sou beneficiado com isso. E também tenho procurado ter o máximo possível de intervenções e isso tem me ajudado bastante. Mas acho que todos nós que passamos como vice-governadores somos lembrados pela conjuntura de governo. Se o governo estava muito bem, o vice está bem junto; e se o governo tivesse mal, não haveria como ter um bom vice-governador com um governador ruim. Como o governador atual é um dos mais bem avaliados do País eu acabo sendo beneficiado com isso e esse reflexo me é positivo. Fico muito feliz com isso porque estou ajudando um governador que será difícil ser batido por outro em termos de contribuições deixadas como legado ao Estado de Rondônia pelo Dr. Confúcio.



RD – O governo Confúcio já enfrentou diversas operações nesses dois mandatos. O próprio peemedebista chegou a ser conduzido coercitivamente pela Polícia Federal por conta de uma delas. O deputado Mosquini, ex-diretor do DER, foi preso antes de assumir o mandato. Como o senhor vê o saldo dessas investigações e qual sua visão sobre os desdobramentos das denúncias como a das fraudes na construção do Espaço Alternativo?

DP – Olha... Toda e qualquer notícia negativa afeta o governo. Quando nós fomos eleitos tínhamos uma ação judicial que inclusive foi julgada por unanimidade a favor do governador Confúcio Moura e eu fui beneficiado com isso. Da mesma maneira o governador respondeu por abuso de poder econômico dentro de um processo eleitoral, e nós fomos condenados aqui [pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RO)] e eu fui o primeiro a sair em defesa dele. No grau de revisão disso fomos julgados e o Estado de Rondônia foi beneficiado por sete a zero. E eu digo isso porque não foi o governador Confúcio o beneficiado disso, foi o próprio Estado. E eu acredito que temos de fazer com que o Poder Judiciário tenha oportunidade de apreciar toda e qualquer denúncia contra qualquer cidadão. Não é o Confúcio Moura, o Daniel Pereira, enfim, é qualquer cidadão deste País.  Todo mundo tem de ser submetido a esse crivo.



RD – Isso traz prejuízo?

DP – É claro que traz! Agora, isso não quer dizer que nós tenhamos de pegar as pessoas acusadas e usar isso como verdade universal, até porque o Brasil vive hoje uma situação em que você não sabe mais quem é culpado ou inocente. Porque todo mundo está sendo acusado de alguma coisa. Então acho que temos de dar tempo ao tempo, deixar o Poder Judiciário fazer o papel dele e eventuais processos contra o governador tramitam no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Nosso papel é deixar que os ministros do STJ façam seu trabalho porque eles terão a sabedoria de analisar o caso concreto e tomar a decisão jurídica que entenderem melhor e cabe ao governador, ou a quem quer que seja, fazer a melhor defesa. Agora, isso tudo não nos deixa enxergar o ódio que está ocorrendo no Estado de Rondônia.

RD – E o que faz não enxergar esse “ódio” ao qual o senhor se reporta?

DP – Nós melhoramos e muito na agricultura, temos um secretário de Estado de Agricultura que é cara que esteve por mais tempo a frente da pasta e não é por bajulação, não é por ‘puxa-saquismo’ porque é extremamente eficiente. Temos desempenho muito bom na área de Saúde Pública dando exemplo ao Brasil inteiro. Precisamos melhorar ainda na área da Educação, mas acreditamos que o governador Confúcio Moura tem contribuído muito para esse fim. Este ano, que terá avaliação do IDEB [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], pelo desempenho do nosso pessoal, pela garra, pelo espírito e pela luta, não tenho dúvidas de que teremos um bom resultado. Não temos a Educação que gostaríamos de ter, mas estamos muito longe das piores colocações do País. Na área de Segurança Pública estão ocorrendo uma série de intervenções e inclusive eu, pessoalmente, tenho tentado ajudar para que a gente possa mudar alguns paradigmas. O setor, ao término deste governo, deve terminar bem melhor do que quando o governador assumiu o mandato. Então estão ocorrendo muitas coisas boas.

RD – E as notícias ruins?

DP – Sempre trarão desânimo e prejuízos. As informações boas no Estado de Rondônia são tão grandes, que eu não tenho a menor dúvida de que a população já reconhece e reconhecerá ainda mais esses serviços. O governador, a despeito de ser um homem de visão futurística, não faz tudo sozinho. Não podemos deixar de ressaltar o papel que a ALE/RO está tendo através do deputado Maurão [de Carvalho, presidente do Poder], na verdade dos 24 deputados, em prol do Estado. Sou muito tranquilo em relação a falar sobre deputados, porque devo ter sido o deputado estadual mais chato que este Estado já teve. Então por mais oposição que um deputado ou outro faça, e eu respeito muito isso porque já fiz o mesmo e compreendo os posicionamentos, o respeito é salutar. Porque na hora que precisamos dos deputados para discussões de interesse da população os parlamentares não têm faltado com relação ao voto.

RD – E a relação com o Judiciário e órgãos de controle?

DP – Temos relação amistosa com o Poder Judiciário, com o Ministério Público (MP/RO), com o Tribunal de Contas (TCE/RO), com as instituições produtivas do Estado, enfim. Então a gente vive um momento muito bom. Vamos deixar a Justiça fazer o seu papel, o seu trabalho. Acredito muito no governador Confúcio Moura.

RD – O senhor não teria nada a comentar sobre a condução coercitiva perpetrada contra o governador?

DP – Foi uma situação extremamente arbitrária e desnecessária. Nem tinha tomado posse ainda como vice-governador, mas fui o primeiro e dizer isso. Eu era apenas o vice-governador eleito do Estado de Rondônia e me manifestei dizendo que o que havia sido feito com o governador Confúcio Moura, no episódio da condução coercitiva, foi uma estupidez, uma arbitrariedade desnecessária! Porque a Justiça do Estado de Rondônia, do nosso País, ouviria o governador Confúcio Moura a hora que quisesse. Não havia necessidade alguma de bater de manhã na casa dele para fazer condução coercitiva, um abuso desnecessário! É um cidadão que todo mundo sabe onde está, que jamais fugiria às suas responsabilidades no sentido de prestar qualquer tipo de esclarecimento. Mas, como eu disse, estamos vivendo um momento muito difícil e todo mundo está pagando por isso, indiferentemente de ser culpado ou não.

RD – Há uma banalização no instituto da condução coercitiva?

DP – Nesse caso eu diria que houve. Por exemplo, o próprio presidente Lula foi conduzido coercitivamente e eu não vi, falando como advogado, e também como cidadão, necessidade nenhuma. Você tem de levar de forma coercitiva o cidadão que está se recusando a comparecer perante a Justiça ou estou diante de uma situação, de um momento, que esse cidadão está destruindo provas, está criando obstáculos para que você possa fazer o trabalho da Justiça. Aí justificaria, o instituto foi feito pra isso. Agora, a irregularidade a qual o governador Confúcio estava sendo acusado ocorreu três anos antes da condução dele. Os documentos que as autoridades queriam já estavam nas mãos delas. A condução coercitiva foi feita para perguntar a respeito de coisas cujas respostas já tinham. A irregularidade que nós tínhamos em relação ao Espaço Alternativo, eu não sei qual será o posicionamento da Justiça, teremos de esperar para ver, mas até agora pelo que sei ninguém foi denunciado de nada com relação àquilo. Só sei que quem foi prejudicada foi a população de Porto Velho. Por mais que tivesse havido a operação, o Espaço Alternativo estaria pronto e a população beneficiada com isso há muito tempo. Vai ficar pronta, será terminada. O local ficará muito bonito. Mas o povo teve prejuízo com aquilo. Porque houve amplo investimento na obra, que ficou mais de ano parada. Esse investimento foi perdido. Talvez, e não estou aqui fazendo critica ao Judiciário e nem às demais autoridades, mas apenas expondo uma observação como cidadão, às vezes, ora, se tenho prova de que houve uma irregularidade em uma obra, seria melhorar deixar com que fosse concluída para que, após a inauguração, os responsáveis pelo problema sejam punidos.

RD – E os recursos dispendidos em irregularidades?

DP – O ressarcimento seria pedido a quem cometeu o erro e ninguém sairia prejudicado. Porque se você pega uma obra que está pela metade, achando que há irregularidades em sua construção e faz uma intervenção sem buscar nenhum centavo de volta e aquela obra não é conclusa ou fica como “esqueleto” colocado a céu aberto, a população será sempre a grande prejudicada. É preciso usar a lei que está em vigor desde que Deus colocou o homem no mundo: a lei do bom senso.



RD – Como foram as duas décadas militando pelo PT?

DP – Obrigado por essa pergunta porque neste momento em que o Partido dos Trabalhadores está em grande dificuldade é uma oportunidade que tenho para dizer que eu ajudei a construir aquilo que o partido almejava. Entrei como filiado no PT lá em 80 e alguma coisa, acho que 87, fui candidato a vereador em 88, fui eleito e com o mandato ajudei a fundar sindicatos e colaborei com inúmeras campanhas. Fui cabo eleitoral do Lula. Mas aos dezesseis anos já era militante do PT e como opção política minha de filiação. Antes de me filiar ao PT vários outros partidos me procuraram e eu nunca tive interesse. E também não tinha interesse em participação político-partidária. Eu fui escolhido numa escola em que eu dava aula em 87 para ser candidato a vereador em 88. E eu não era sequer filiado a um partido político. E a partir daí me filiei ao PT. Exerci três mandatos pelo PT no século passado aqui em Rondônia. Não tem ninguém com mais mandatos do que eu e nem tão dedicado ao partido. Podem até empatar comigo em termos de compromisso com o partido, mas ter feito mais do que eu é impossível.

RD – Por que impossível?

DP – Não tinha como! Eu cheguei a correr o risco de morrer em função das bandeiras do PT durante muito tempo e não me arrependo de nada disso porque fiz tudo que achava que era certo. Em 2002, deixei de ser eleito deputado federal e algumas pessoas acham que isso ocorreu porque eu não tinha mérito para isso. Eu tinha! Mas fiz questão de pegar pelo menos cinco nomes que iriam me apoiar como cabos eleitorais e os transformei em candidatos. Porque a leitura que eu fiz foi a seguinte: como é que nós elegeríamos o presidente Lula sem dar sustentação ao governo no Congresso Nacional? Quem dá sustentação ao governo é o parlamento, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Então peguei várias pessoas que trabalhariam como meus cabos eleitorais, como se diz comumente, e as transformei em candidatas. Eu deixei de ser deputado federal em 2002 pela falta de 500 votos. Mas ajudei a eleger dois deputados federais, o saudoso Eduardo Valverde [falecido em março de 2011] e o Anselmo [de Jesus]. Eu ajudei a construir a composição com o atual senador Acir [Gurgacz, do PDT], que foi candidato a governador e criei condições de eleger a ex-senadora Fátima Cleide.  

RD – E então?

DP – Eu saí do PT deixando quatro deputados estaduais eleitos. Agora, é óbvio e eu sempre tive alguns problemas, porque o PT achava que quem era de Porto Velho era um pouco melhor do que o pessoal do interior. Havia preconceito mesmo com o pessoal do interior. Só que infelizmente o PT só veio a ter deputado estadual eleito na Capital num tempo bem recente. Até então era só o pessoal do interior que se elegia. E sem nenhum demérito. Era situação de conjuntura e o PT sempre teve bons quadros em Porto Velho. Mas no processo de 2002, na época fui acusado por militantes do PT de ter cometido irregularidades na ALE/RO que eles próprios reconhecem que cometeram uma grande injustiça, até porque que irregularidade foi essa se eu nunca fui chamado em local algum para dar qualquer tipo de esclarecimento? Nenhuma instituição me chamou para falar sobre irregularidade alguma. O PT era extremamente zeloso.

RD – Era?

DP – Era sim, e é uma pena que muitos desses valores foram perdidos pelo caminho. E acabaram sendo vítimas das próprias atitudes no futuro, ou seja, da facilidade de acusar alguém sem apresentar prova alguma ou ter o mínimo de consistência. Então eu tive uma militância ativa e devo muito ao Partido dos Trabalhadores. Aprendi muito e tenho muitos amigos dentro do PT. Fico muito triste pelo PT estar passando por esse processo que não tem como negar que seja terrível. Acho que o PT errou, porque era uma esperança. Você, por exemplo, que é jovem, minhas filhas que são jovens, qual é o desejo? Ter esperança, o sonho de acertar no futuro aquilo que não está legal. E o PT representou isso para a minha geração. E se nada mudar nós estamos a um ano, um ano e pouco para as eleições à Presidência da República e eu questiono a quem estiver lendo esta entrevista: “Qual a expectativa para 2018?”. Nós não temos. E todas as expectativas apresentadas até agora são sombrias. Então, infelizmente, o PT errou bastante nisso e o País está pagando muito por esses erros. E aqueles que acreditam numa concepção mais à esquerda de se fazer política também estão sendo prejudicados. Esse descontentamento ficou muito claro.

RD – Sentiu que havia feito a coisa certa ao ‘sacrificar’ a própria candidatura?

DP – Ao terminar o primeiro turno naquela época, senti que havia cumprido com minhas obrigações ajudando a eleger os deputados federais para servir de base ao governo Lula. Se todo o militante que permaneceu no PT tivesse ido para o “sacrifício” como eu fui, a Dilma não teria perdido o mandato. Porque meia-dúzia de votos a mais que ela tivesse tido na Câmara Federal o impeachment não teria sido aprovado nas comissões pelais quais passou. No Plenário seria mais difícil. Só que nas duas comissões já era possível ter “matado” isso.

RD – Por quê?

DP – Porque as gerações que vieram depois dentro do PT não estavam e nem estão comprometidas politicamente como eu fui com o partido e suas bandeiras. Muitos lá só pensam em si. Há políticos equivocados. Aqui no Estado de Rondônia mesmo, e friso ter muito respeito pelo Partido dos Trabalhadores, há os descompromissados. Não era pra eu estar concedendo esta entrevista na condição de vice-governador. Era pra ser alguém do PT!

RD – Era o desejo do governador?

DP – Sim, o governador Confúcio Moura queria o PT de vice dele. O PMDB, que é o partido do governador, queria e brigou para que o PT fosse vice. Mas a importância não era o fato de o PT eleger o vice. A importância era o PT, com os quadros que têm, ter elegido um ou dois deputados federais para ser base da presidente Dilma, para ajudar a comandante da República. Então o que sobrou para nós em 2002 de consciência, de estratégia e compromisso com o partido, faltou em 2014 aqui no Estado de Rondônia. E será que isso não aconteceu no País todinho?

RD – Aconteceu?

DP – Claro. Porque quando um partido forte como o PT deixa de criar condições para eleger parlamentares e dar sustentação ao governo acaba ficando refém das situações que nós vivemos. Uma leitura rasa do Maquiavel nos ensina o seguinte: “Quem vai à guerra com exército mercenário pode ser traído. Você tem de ter o seu próprio exército”. E essa era a concepção que eu ajudei a defender em 2002. Lamento muito que o PT esteja passando por isso.



RD – E sobre o Lula, o que pensa a respeito?

DP – Sou profundo admirador do presidente Lula e hoje poderia me omitir, não dizer isso, até porque o País está dividido, mas não posso trair a mim mesmo. Seria covardia minha ter votado num cidadão três vezes, ter feito campanha nas três ocasiões sem pedir um copo d’água em troca, e não dizer nada a respeito. O Lula, nas duas vezes em que foi candidato a presidente – eleito e reeleito – não só fui cabo eleitoral dele como dei o melhor de mim para que ele pudesse ser o presidente da República. Com relação a presidente Dilma eu já não estava mais no PT, aliás, mesmo na reeleição do Lula já não estava. No primeiro turno da eleição da Dilma eu não votei nela. Mas nas duas eleições votei nela no segundo turno. É claro que em 2014 votei na presidente Dilma por convicção, mas também por oportunismo, claro.

RD – Oportunismo político?

DP – Sim, porque se eu votasse e fizesse campanha para a presidente Dilma, eu teria segurado, como segurei, o apoio importantíssimo do PT aqui no Estado de Rondônia. Enfim, espero que o PT se reencontre, pois é um partido que gerou  expectativa a milhões. Espero que consiga encontrar seu ponto de equilíbrio, assim como, e eu acabei de falar sobre acusações que o governador Confúcio Moura responde, espero que o presidente Lula consiga dar os devidos esclarecimentos. Vejo algumas coisas assim... Do ponto de vista da ética é até cabível a discussão, mas do ponto de vista prático não. Poxa, tivemos um cara que administrou durante oito anos a oitava maior economia do Planeta. E esse cara está sendo crucificado, culpado ou não, por causa do que, mesmo sentenciado, seria considerado crime de bagatela!

RD – Por que o senhor considera um crime de bagatela?

DP – Porque aquele apartamento que dizem que é dele e até agora ninguém conseguiu comprovar, e eu não entro no mérito porque quem tem de dizer isso é a acusação, mesmo que seja dela, se o único crime do Lula for aquilo dali é um crime muito pequeno. Porque há vereadores em cidades do interior aqui que moram em casas muito melhores do que aquela usada na acusação contra o Lula. Contra o presidente Lula, numa leitura mais técnica do que política, por divergências político-partidárias estabeleceram o seguinte: “O Lula é culpado, mas nós não sabemos do quê. Então vamos tentar buscar as provas para comprovar isso”. E infelizmente esse tipo de coisa levou a gente a essa profunda recessão econômica que estamos vivendo.

RD – Por que acha que isso tem a ver com recessão econômica?

DP – Porque nosso problema é muito mais político do que econômico. A presidente Dilma vinha com a menor taxa de desemprego registrada no País. O que aconteceu ao final do governo dela que mudou drasticamente esse panorama? Ocorreram alterações no cenário internacional e a gente não pode esquecer que Portugal, Espanha e até mesmo os Estados Unidos da América passaram e ainda passam por situações complexas economicamente falando. O petróleo foi desvalorizado em 60% no mercado internacional e o reflexo disso é a Venezuela mergulhada numa profunda crise. Isso porque a Venezuela é um país cuja economia é baseada cem por cento no petróleo. Então os venezuelanos perderam 60% de suas receitas e, consequentemente, 60% das suas condições de se autofinanciar. E aí, quando você tem comida em abundância, há paz e prosperidade; ao perder isso, o caso se instala. Com relação a essa situação da presidente Dilma, que é tão complicada, para tentar justificar o seu afastamento por denúncia de fraude, caixa 2 e coisa e tal, o próprio PSDB deu um tiro no pé.



RD – Como assim “tiro no próprio pé”?

DP – Ao denunciar a presidente e promover a caça às bruxas, descobriram que as mesmas fontes que abasteciam as campanhas da presidente Dilma também abasteciam as campanhas de seus concorrentes, inclusive dos tucanos. Foi um tiro no pé, mas a presidente Dilma perdeu o seu mandato e os tucanos de alta plumagem também estão sendo atingidos pela mesma munição que usaram contra ela. É salutar aprender a respeitar o resultado das eleições numa democracia. Essa é a lição a ser aprendida.



RD – O senhor ainda se considera um político de esquerda?

DP – Eu sou um político de esquerda! O que me fez militar no PT foi e ainda é acreditar na possibilidade e na necessidade de trabalhar buscando melhorias para a população. É o sentimento que tenho até hoje. A mesma guerra que tenho como vice-governador é a garra que tive quando fui vereador pelo PT, trabalhando nessa função durante oito anos. Então é algo em que acredito. É claro que a gente não pode deixar de fazer uma avaliação, de pensar a respeito dos processos de mudanças. Há muitas coisas que a esquerda tradicional defendeu ao longo do tempo que estão ultrapassadas e não podem ser aplicadas como algo dogmático. Nós temos a questão da produção do campo, por exemplo, o modelo de luta pela reforma agrária, que é mais política do que econômica: é um negócio anacrônico! É algo que talvez tivesse validade lá em 1917 na Rússia, durante Revolução Russa. Mas aqui no Brasil não.

RD – Por que não funcionou e nem funcionaria no Brasil?

DP – Porque hoje, se você pega um pedaço de terra e coloca uma pessoa que nunca plantou nada, nunca trabalhou no campo e não é treinada pra isso, não tem aptidão para essa vida, ela irá morrer de fome em cima de terra! A gente tem de ter consciência de que é preciso colocar na terra pessoas com aptidão para trabalhar com ela. E não é pegar os desvalidos da periferia que não tem emprego e nem oportunidades e achar que dando um pedaço de terra a eles irá resolver alguma coisa. Na verdade, agindo assim, você está criando outro tipo de problema. E eu digo isso com muita tranquilidade porque já corri o risco de morrer por conta de assentamentos. Sei muito bem o número de pessoas que nós colocamos em determinados assentamentos.

RD – Por exemplo?

DP –  Por exemplo, Vitória da União, em Corumbiara, eu fui despejado lá em dezembro de 1985. Se você voltar lá, 30 anos depois, deve haver no máximo cinco por cento das pessoas que foram assentadas originariamente lá. Se você pegar o assentamento da Nova Vanessa, fruto do Massacre de Corumbiara, não tem dez por cento mais do pessoal que foi assentado originalmente lá. Darão a seguinte desculpa: “Ah, mas não foram criadas as condições para que as pessoas ficassem lá”. Velho, eu estou falando de algo que conheço! Na época em que meu pai foi assentado lá pelo ano de 78 na Linha 7, da terceira para quarta eixo de Cerejeiras, onde eu tive de optar aos 15 anos  se iria continuar estudando ou ajudar meu pai, escolhendo largar os estudos e ir para a roça contribuir com ele e enfrentando o maior de todos os nossos inimigos, que era a malária, a gente não tinha estrada, não tinha nada! E encaramos aquilo lá, enfrentamos aquele negócio. Porque víamos naquilo uma oportunidade de melhorar trazendo progressos futuros a todo mundo, como de fato trouxe.

RD – E qual foi a falha, então?

DP – O fato de que as pessoas que enfrentaram aquilo lá não terem sido beneficiadas. Se você voltar ao local onde meu pai foi assentado irá perceber que todo colono que permaneceu lá está muito bem. E a grande maioria dos que foram embora acabou com tudo o que tinha. Então temos de avaliar isso, a relação capital/trabalho. Não posso enxergar o empresário como inimigo. Se o empresário é inimigo então por que a gente bate às portas do empresariado todo dia para que abra um novo empreendimento e gere novos empregos? A gente tem de ter a consciência de que há pessoas com aptidão para gerar empregos, postos de trabalho. E essas pessoas são muito bem-vindas. A gente tem de dar uma medalha, tem de dar um troféu a essas pessoas. Apesar de contas, seria uma contradição: para quem pensa que o empresário não é necessário, deveríamos, então, estar comemorando, oras! Porque quanto menos emprego, menos empresários em atividade existem. Ninguém resolve sua própria situação sem depender de outrem. Se eu sou servidor público, eu tenho um empregador, tenho um patrão, que é o governante de um Estado, o gestor de plantão. Você que está me entrevistando trabalha em uma empresa. O dono da empresa em que você trabalha é importante como gerador de emprego. Então nós não podemos fazer como foi feito na Revolução Industrial e sair quebrando as máquinas porque elas significam ameaça aos nossos empregos.



RD – E como deve ser feito?

DP – Continuo acreditando que nosso papel como ser humano é esse. Se isso é ser chamado de socialista, ser denominado como cristão, embora não seja hipócrita em dizer isso, já que não frequento igrejas, mas tenho muito respeito pelo pensamento religioso, que seja caracterizado como tal. O maior pensador, que sempre demonstrou que você tem de fazer as coisas com amor, que tem de fazer aquilo que quer pra si também aos outros despretensiosamente, é Jesus Cristo. Não foi Marx que ensinou isso pra gente, né? Então nesse tipo de coisa eu acredito. E vejo nosso governador fazendo isso. Eu tenho até feito analogias.



RD – Quais analogias?

DP – Acabamos de ter uma feira em Ariquemes, onde tivemos a multiplicação dos peixes. Se Jesus Cristo tivesse nascido em Rondônia em vez de nascer na Palestina, teria sido muito mais fácil fazer o milagre da multiplicação para alimentar a multidão. Porque em Ariquemes, em Rondônia, provavelmente faltaria multidão para ele alimentar, porque peixe teria em abundância. E isso é fruto de um processo político. Em seis anos nós aumentamos em dez vezes a produção de peixe no Estado de Rondônia. E isso é resultado de um trabalho de quem gosta de pessoas. Porque eu acho que ser socialista é isso. Indiferentemente dos rótulos de esquerda e direita. Porque isso é muito relativo.

RD – Relativo?

DP – Dependendo do humor da pessoa contigo ou você é de direita ou é de esquerda. Por exemplo, se alguém de extrema esquerda tiver acesso a esta entrevista, devido ao meu posicionamento referente à legislação do trabalho, e eu sou formado em Direito ao Trabalho, também em relação à Reforma da Previdência, mesmo sem abrir mão de tecer críticas a respeito, mas levando em conta a necessidade de haver reformulação, serei considerado por essa pessoa um sujeito de extrema direita. Já os de extrema direita, os extremamente direitistas neste momento, irão pensar: “Poxa, esse Daniel pode até estar fingindo ser mais à direita, mas continua esquerdista como sempre”. Ou seja, corro o risco, pela forma como ajo em relação à seriedade comigo mesmo, não levando em conta eventual preocupação com o que possam pensar a meu respeito, de desagradar tanto direita quanto esquerda. Mas prefiro agradar primeiro a minha consciência, que está muito tranquila.

RD – Levando em conta esses tempos de ranço ideológico e polarização política, não é arriscado dizer numa entrevista “Eu sou de esquerda” levando em conta que o senhor tem pretensões políticas futuras?

DP – Prefiro perder uma eleição a perder minha identidade. Até porque não adianta, não é a entrevista que estou concedendo que irá causar esse impacto. É aquilo que eu fiz ao longo da vida. O ser humano não é aquilo que diz em determinado momento. Você, como profissional de imprensa qualificado que é, antes de vir para cá fez  toda uma pesquisa e me questionou sobre coisas que ocorreram há mais de vinte anos. Algumas delas há mais de dez anos. Essas informações estão muito abertas, principalmente agora em tempos de Google, onde basta inserir o nome do cidadão para ter acesso a toda a sua vida. Tudo o que foi feito de bom ou de ruim às claras. Não há como esconder nada! Agora, gostaria, se você me permitisse, apenas uma observação...

RD – Permito...

DP – O processo pode ter iniciado para tentar destruir o PT, mas neste momento tanto a esquerda quanto a direita estão ruídas. Se é que tem alguém que pode ser chamado atualmente de esquerda ou de direita. Porque como eu disse é uma questão de referência. Mas nós temos belíssimas pessoas públicas no Brasil que estão sendo vítimas disso. Por exemplo, eu sou admirador do governador [de São Paulo] Geraldo Alckmin (PSDB). Eu gostaria muito que ele fosse o nosso presidente da República e estaria e estou disposto inclusive a ajudá-lo se ele for o candidato.



RD – No mínimo inusitado um homem de esquerda que declara apoio público a Alckmin, não?

DP – Na verdade o que atrapalha é essa sanha de acusa pra cá e acusa pra lá, de gente acusando todo mundo,  um dizendo o que sabe a respeito do outro. Estão chegando a todo mundo. O Geraldo Alckmin, politicamente, é um homem que será “caçado” [no sentido de ser perseguido, não de perder o mandato] em todos os cantos. E muitas outras pessoas públicas de história exemplar também. Porque o que ocorre é o seguinte: atividade política, e não foi o PT que iniciou isso, embora tenha cometido erros, mas não foi a sigla que iniciou esse processo. Pra combater o PT tentaram combater a política e os políticos. Esqueceram que qualquer pessoa com intenções de se candidatar é obrigada a se filiar a um partido político. E a partir do dia que essa pessoa, que nunca foi candidata a nada e jamais pertenceu a qualquer legenda se filia a um partido político registrando uma candidatura em seguida, perde a sua “virgindade” entrando para o seleto grupo dos que são políticos. Então essa situação de o cidadão dizer que não é político e é por isso que é candidato é brincadeira! É uma negação dele mesmo. Ora, se não é político então por que é candidato a alguma coisa? Então o que nós temos de discutir é o que você faz como político, o caráter que tem de ser apresentado, o compromisso com o mandato.

RD – É um erro, então, ‘demonizar’ a política e os políticos?

DP – Claro, a solução não é tentar destruir a política como se fosse algo ruim. “Ah, mas esses políticos que nós tempos...” Cara, os políticos que nós temos são como os nossos delegados, professores, médicos, padres, pastores, enfim, aquilo que a sociedade produz. Se os nossos políticos são ruins é porque nós estamos dando contribuição à produção. Por exemplo, duas coisas que vou dizer pra você aqui e poderia nos ajudar a melhorar a questão do político. Primeira coisa, ao votar no político só porque ele prometeu a você gerar emprego à sua família no serviço público, já é um “belo” caminho. Eu fui candidato a prefeito em 1992 por Cerejeiras e uma família cujos membros alfabetizei como professor e o patriarca, como auxiliar de agente de saúde trabalhando com minha esposa, ajudou a salvar a vida de uma mãe.

RD – Qual a história?

DP – Eu fui candidato a prefeito e por ser sincero meu vizinho chegou até mim e perguntou: “Daniel, se você for eleito prefeito arruma emprego pros meus meninos?”. Olha, eu fui professor dos meninos dele. Respondi: “Olha, eu não sei se posso prometer isso pra você. Primeiro, não sei quanto a prefeitura gasta com pessoal e nem sei quais são os recursos à disposição. Se eu me eleger prefeito defendo que a gente vá fazer concurso público e eu não sei se seus filhos irão passar. Então não posso garantir a você que darei emprego a eles”. Aí o concorrente que ganhou a eleição, que era conhecido dele, amigo de todo mundo, teria dito a ele que, caso ganhasse, daria os tais empregos. 

RD – Moral do enredo?

DP – Seis meses depois da eleição para prefeito ele sequer morava lá e os filhos dele nunca foram funcionários da prefeitura. Agora eu, por causa da sinceridade, perdi o voto dele. E outra coisa, inclusive de pedir que você, como profissional de imprensa, jovem que é, ajudasse a gente a estimular isso.

RD – Estimular o quê?

DP – Por exemplo: está todo mundo criminalizando os políticos. E cá para nós: a maior parte de nossos políticos merece a ‘peia’ que está levando. Agora, vamos fazer o seguinte: o cidadão que compra celular pela metade do preço sem se preocupar de onde veio; quando compra um computador pela metade do preço, sem se preocupar de onde veio e só porque o preço é mais barato; um tênis de marca que compra pela metade do preço porque um sujeito chegou vendendo a ele não reflete que essas mercadorias foram roubadas, tomadas de alguém. Ou seja, quando agimos assim, estamos ajudando a reproduzir, por exemplo, a violência que nós temos em nosso país. E não é diferente aqui no nosso Estado. Todo mundo quer paz e segurança, mas quando um cara que roubou um celular vem vender para ele pela metade do preço o cidadão ainda quer pechinchar pra ver se abate ainda mais o valor.



RD – O cidadão comum produz os políticos que tem?

DP – Uma sociedade que age do jeito que descrevi ajuda a produzir os políticos que nós temos. Se nós não tivermos uma mudança de mentalidade social, você pode cassar o mandato de todos os vereadores, deputados estaduais, federais, senadores, governadores, do presidente da República, enfim, de todo mundo que tem mandato e consequentemente nenhum deles poderá ser candidato de novo. Daqui a quatro anos, as acusações que fizeram aos que saíram dos mandatos, serão feitas aos que irão entrar. Porque o nosso comportamento é que tem de ser mudado.

RD – Como?

DP – A gente tem de aproveitar este momento de profunda crise, e a nossa crise é acima de tudo uma crise ética, mas não apenas de um segmento, é uma crise ética do país. Temos de tirar boas lições disso e quem sabe num futuro próximo a gente possa nos reencontrar em todas as qualidades. Somos um país fantástico, cheio de potenciais. Acabo de sair de Tocantins para vir pra cá e a gente voa mais de mil quilômetros no Centro-Oeste do Brasil. Que país maravilhoso que nós somos! E aí a gente sai do Centro-Oeste e vem aqui para o sentido Norte do País, você viaja mais dois mil e quatrocentos quilômetros em cima de prosperidade, de oportunidades ao longo de todo o País. Nós temos um potencial fantástico, mas talvez por conta do excesso de potencial que temos e pela facilidade que existe em conseguir as coisas em nosso País, sem passar por grandes dificuldades e crises para compreendê-las a exemplos de desastres naturais e guerras, é que agimos assim com essa despreocupação e sem mudanças de posturas. A Alemanha, destruída numa guerra terrível, hoje é a economia mais forte do Planeta. Então nós, brasileiros, temos de nos reencontrar. E espero que consigamos fazer isso.



RD – Voltando ao mandato de deputado estadual, o senhor poderia nos explicar melhor a mácula registrada em seu mandato envolvendo uma caminhonete do Legislativo no ano de 1999?

DP – Fui acusado por uma pessoa que é muito amiga minha dentro do PT, embora não saiba se ela ainda está no partido. Mas ele achava realmente que estava fazendo a coisa certa e ainda que eu tenha dado todos os esclarecimentos a ele há treze anos, os mesmos que vou passar a você agora, não consegui convencê-lo. Na época o PT estava certo nisso, no sentido de ser rigoroso em relação à ética. Era preferível “sacrificar” alguém dentro do partido a deixar que atitudes erradas fossem deflagradas sem que ninguém fizesse nada. E o PT fez muito isso. Tanto é que a prefeita Luiza Erundina [ex-prefeita de São Paulo (89/93), atualmente deputada federal do PSOL] teve um vice Luiz Eduardo Greenhalgh, acusado de irregularidades e, embora fosse o vice-prefeito e secretário municipal, foi afastado por ela para que os fatos fossem apurados e, resolvida a questão, foi devolvido às suas funções pela gestora. E essa era a postura que o PT deveria ter mantido, inclusive.

RD – Sim, mas e o seu caso?

DP – Vamos ao que eu fui acusado: quando assumi o mandato como deputado estadual em 1995 havia uma camionete toda detonada da ALE/RO e esse veículo fora reformado para ficar à minha disposição. Primeiro, o serviço foi mal feito: contrataram uma oficina de fundo de quintal e fizeram um trabalho horroroso. A única coisa que me arrependo do mandato de deputado foi ter ficado com aquela camionete, porque aquilo nunca me trouxe benefício nenhum, só prejuízo! E como era uma caminhonete ruim, não dava para andar com ela para cima e para baixo, acabei deixando-a na Região Sul do Estado e ora ela atendia a APAE, ora atendia uma associação rural que promovia determinado evento, enfim. Quando cheguei à ALE/RO eu andava a pé, não tinha carro. Eu fui comprar carro quase um ano depois do início do meu mandato. Não tenho nenhum constrangimento em contar isso. Quando fui candidato a deputado, eleito em 1994, eu tinha uma moto de 1987, não tinha veículo próprio. Um amigo meu, o professor Jonas, que hoje trabalha aqui no Colégio Carmela Dutra, é quem tinha um carro com quase vinte anos de uso e ele deixava de pescar nos finais de semana para deixar o carro velho à minha disposição para fazer campanha.

RD – E aí?

DP – Então essa caminhonete velha ficava lá na região e numa noite que fui fazer uma reunião em Cabixi havia um senhor idoso que morava em determinada linha, muito amigo nosso. Para que ele pudesse ficar na reunião que a gente iria fazer lá em Cabixi alguém teria de levá-lo. Então ele ficou comigo até o término da reunião e aí o motorista que estava comigo foi com ele para levá-lo de volta até em casa. O nome desse cidadão é Ismael. No meio do caminho estava vindo um caminhão de tora. E esse caminhão só estava com um farol aceso. Esse veículo tinha uma tora atravessada e uma lasca de madeira se desprendeu dessa tora indo em direção à caminhonete dirigida pelo Ismael. Se tivesse atingido o peito dele ele teria morrido na hora, foi um negócio terrível. E acabou com um dos lados da caminhonete. A caminhonete era pública e nós não estávamos fazendo nenhum tipo de uso indevido que tivesse de ser escondido.

RD – Era preciso consertar o veículo, então...

DP – A caminhonete era da ALE/RO e na época o presidente do Legislativo Silvernani Santos foi procurado por mim e eu relatei a situação toda informando a necessidade de arrumar o veículo para continuar trabalhando. Como a caminhonete estava em Cerejeiras e não dava para trazer nas condições em que estava para Porto Velho ele pegou e falou: “Olha, manda arrumar a caminhonete que a gente faz o ressarcimento do que você pagar aqui”. Tranquilo, compromisso feito. Fui lá, mandei fazer o serviço e aquele negócio todo, a nota foi emitida e eu paguei. Só que quando cheguei aqui houve mudança de presidente na ALE/RO e acabou não ocorrendo o ressarcimento. Quando assumiu o novo presidente eu o procurei e ele me disse: “Não posso mais pagar a nota porque ela foi emitida no ano passado”. Aí ele próprio indicou o caminho e disse: “Vamos fazer o seguinte: indica duas pessoas aqui e eu faço o pagamento delas”.

RD – Então o senhor optou pelo caminho equivocado?

DP – Eu agi errado administrativamente. Se fosse hoje eu preferia ter perdido o dinheiro como acabei perdendo de qualquer forma. Porque quando fui acusado dessas irregularidades, e administrativamente eu estava errado mesmo, peguei o dinheiro e devolvi para a ALE/RO. Era o dinheiro do valor da nomeação dessas pessoas: tanto do meu concunhado quanto da minha esposa. Mas isso só ocorreu para que eu pudesse receber o ressarcimento do dinheiro que usei para custear o conserto de um automóvel pertencente à frota do Legislativo. O dinheiro me era devido. Agora, a maneira que eu utilizei para fazer esse ressarcimento acontecer foi errada. Foi algo que fiz errado e não deveria ter feito, tanto é que reconheci o erro e devolvi o dinheiro. Para se ter uma ideia, fiquei na ALE/RO durante oito anos e eu nunca usei um copo d’água de lá de forma indevida. Não sei se a ALE/RO tem registro disso ainda, mas todas as vezes que eu tive de fazer uma viagem, se eu tinha de voltar antes, o que não era novidade, era apenas minha obrigação, mas pouquíssimos faziam isso, devolvia cada centavo disso. Lembro que no final do ano anterior fui designado a uma missão em Belém/PA e acabei não indo, mas mesmo não indo a ALE/RO já tinha custeado todas as diárias para mim. O que eu fiz? Devolvi cada centavo. Havia muita gente que pegava diária pra viajar e nem viajava, porque não tinha o controle rigoroso de hoje. Passei seis anos como presidente do Sindsef sem o rigor do TCE/RO e outros órgãos de controle, mas mesmo assim nenhum centavo da ALE/RO ficou comigo. Mas naquele momento isso foi tido – e eu tinha adversários, todo mundo que faz política tem – como uma oportunidade para me tirar de cena.

RD – Por que fariam isso?

DP – Porque, como disse,  devo ter sido  o deputado estadual mais chato que este Estado já teve. E eu provoquei a ira de muita gente quando fui deputado. Como havia uma disputa interna dentro do PT alguém que estava de fora, que não tinha mandato, acabou vendo isso como uma bela chance de me tirar de circulação. Não sei se isso foi bom ou ruim, mas a conclusão dos fatos é: nunca respondi a nenhum tipo de irregularidade, até porque assumi isso publicamente há 13 ou 14 anos. Devolvi o dinheiro da ALE/RO referente ao que estava sendo acusado e o meu partido acabou agindo de forma como se eu tivesse cometido algum tipo de irregularidade. Mas as pessoas que me acusavam de irregularidades forma as mesmas que se aproveitaram da articulação política que eu fiz. Alguns dirigentes do PT viram a oportunidade de livrar de um cidadão que incomodava, que tinha prestígio, que tinha trabalho... Tanto é que, e eu não estou me autoavaliando de forma equivocada porque passei por um teste logo em 2006, quando fui candidato a deputado federal, tive retorno independentemente do PT.

RD – Por que precisou passar pelo teste?

DP – Algumas pessoas dentro do PT falavam que eu estava “enterrado” politicamente porque saí do partido. Repito: tenho muito carinho e apreço aos amigos e à militância do PT. Mas eu fui candidato em 2006 a deputado estadual de novo. Eu passei três anos desde que saí do partido: eu era funcionário público e estudante. Então eu saía de casa para o trabalho, do trabalho para a casa e da casa para a Universidade e da Universidade de volta para cada. E não visitava ninguém! Em 2006 eu tive mais voto quando candidato a deputado estadual e com menos tempo pra fazer campanha do que tive quando estava no PT. Foi a primeira coisa que descobri: mantenho o apreço ao PT, agora os votos que obtive, e é verdade que muitos deles vieram de militantes do PT, mas a maioria veio para a pessoa do Daniel Pereira e não de questão partidária. E depois ocorreu tanta coisa neste País que eu me pergunto se, caso tivesse sido eleito deputado federal em 2002, será que eu não seria um dos clientes do [juiz federal Sérgio] Moro hoje?

RD – O senhor acha que seria?

DP – A minha vontade era não ser, obviamente. Mas, sei lá, na vida ocorrem tantas coisas... E eu tinha encerrado minha carreira política e devo meu regresso ao Dr. Mauro, inclusive. Não tinha pretensão de ser candidato a nada. Lá em 2012, quando ele [Dr. Mauro] foi eleito prefeito, ao tomar posse no início do ano me convidou e disse: “Olha, não vou trazer você pra prefeitura, mas será o meu candidato a deputado federal”. A princípio eu não queria ser candidato, mas depois pensei: “Vamos trabalhar isso”. E estou aqui hoje como vice-governador e com oportunidade de ouvir você dizer que meu trabalho é reconhecido como um bom trabalho. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas e eu confio muito Nele e o meu destino é Ele quem irá cuidar. Então tenho meu apreço ao PT, acho que fez coisas muito boas e não teria dificuldade nenhuma de elencar várias delas. Citei aqui, por exemplo, a questão das casas. Você pega o Instituto Federal de Ensino, no Estado de Rondônia havia somente uma escola federal. O Fernando Henrique Cardoso pegou com uma e entregou com uma! Hoje há mais de meia-dúzia de escolas federais aqui. No começo do mandato do presidente Lula nós tínhamos pouco mais de mil alunos estudando em instituições federais em Rondônia. Quando a Dilma deixou de ser presidente nós já ultrapassávamos a marca de mais de 40 mil alunos estudando. E isso tem de ser levado em consideração. A parceria da presidente Dilma com o governador Confúcio Moura fez com que a gente construísse aqui casas, moradias e pelo menos cem mil pessoas passaram a ter mais dignidade em suas vidas ao ter um teto sobre suas cabeças. É muita gente.

RD – O que mais?

DP – Aquela 429, aquilo lá era uma vergonha e ainda não está cem por cento pronta, porque falta o encabeçamento de algumas pontes, que já estão feitas. E a parte de pavimentação foi cem por cento realizada no governo da presidente Dilma. Aqui a estrada que a gente tem saindo da BR-364 para Guajará-Mirim, embora seja rodovia federal, antes da presidente Dilma jamais um governo federal havia colocado um centavo naquilo ali. E hoje é uma rodovia que já estava pronta quando a presidente deixou o cargo. Então não há nada de lamentar e nem cobrar do PT, que fez muita coisa certa sim! E fizeram algumas coisas erradas também e a história fará o julgamento desse saldo. Assim como acho que a história fez o julgamento comigo, das acusações que eu recebi lá no passado. Nunca respondi a processo algum, o MP/RO, que é o órgão estatal que tem essa responsabilidade, nunca me denunciou. E não me denunciou porque não havia nenhum tipo de irregularidade. E quando denuncia a gente não pode tomar isso como verdade absoluta! Houve muita gente denunciada que acabou absolvida. Então temos de continuar fazendo o trabalho e por isso agradeço ao PT pela oportunidade. E espero que possam tanto o PT quanto o PSDB se reencontrarem. Aliás, o PSDB é um partido com quadros maravilhosos. O PT e o PSDB são muito parecidos.



RD – Parecidos de que maneira?

DP – O PSDB foi fundado por Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Franco Montoro... e o PT por Florestan Fernandes, Plínio de Arruda Sampaio, Olívio Dutra e o próprio Lula. Todas pessoas fantásticas. Se essas pessoas que fundaram esses dois partidos tivessem trabalhado juntas provavelmente não estariam vivendo uma crise que num primeiro momento arrastou o PT e agora atinge o PSDB e a todos os demais, indistintamente, inclusive o partido ao qual estou filiado, o PSB. O PSB responde a acusações e eu não sei se são procedentes ou não, mas acusado todo mundo está sendo. Então é uma situação bastante difícil e eu espero que as gerações futuras consigam tirar boas lições disso e possamos usufruir de um país melhor.

RD – Nas legislaturas anteriores à Operação Dominó, às quais o senhor integrou como deputado estadual, já havia indícios denotando o costume de alguns parlamentares em achacar o governador do Estado em troca de governabilidade, isso existia antes da gestão de Ivo Cassol?

DP – Vamos dizer o seguinte: eu comecei a gostar de política aos sete anos de idade. E comecei a ter idade para acompanhar um processo político mais de perto já no Município de Cerejeiras. Eu, como cidadão, acompanhando o prefeito, o primeiro prefeito eleito da cidade e a Câmara de Vereadores. E eu lembro que havia muita dificuldade. O que ocorre? Quando você tem dificuldade a tendência do prefeito, do governador e do próprio presidente da República é resolver isso de alguma maneira. E às vezes resolve isso gerando um ciclo vicioso de geração de problemas, criando um segundo, um terceiro e por aí adiante. O governador Cassol gravou aquele grupo de deputados lá, mas ninguém que tem juízo irá imaginar que o cidadão que nunca deu oportunidade pra ninguém conversar indecência com ele será, num belo dia, vítima de parlamentares dizendo o que não deveria.

RD – Ou seja...

DP – Ele já havia feito negociações de tal maneira que aquilo era só mais uma delas. Mas aí, com a proximidade de eleições, e aquele negócio todo... Deu no que deu! O exemplo que tenho de dar é de um cidadão chamado Reni Agostini, primeiro prefeito eleito do Município de São Miguel do Guaporé.



RD – E o que ele fez?

DP –  O Reni é do PT e eu poderia até citar outros nomes, mas vou contar o exemplo dele. Eu ajudei o Reni a ser prefeito de São Miguel. Eu era deputado estadual e fui para lá ajudá-lo. Eleito prefeito, ele vinha a Porto Velho sem sequer ter veículo. Aliás, ele tinha um automóvel, uma caminhonete de ir pro sítio. Ele vinha para a Capital de ônibus e, chegando aqui, não nos avisava que havia chegado. Acabei o encontrando cruzando com ele na Av. Sete de Setembro, todo suado, ao meio-dia. E eu disse: “Reni, pelo amor de Deus, liga para a gente para que possamos te ajudar. Por que você não compra um carro pra prefeitura?”. Ele respondeu: “Eu só vou comprar carro pra prefeitura o dia que eu comprar uma patrol, esteira e duas ambulâncias, pelo menos, par atender a população de São Miguel”. E o Reni só comprou carro para a prefeitura quando cumpriu o que havia dito. Mas o que quero destacar dele não é isso.

RD – É o que, então?

DP –  Logo no início do mandato dele os membros da Câmara de Vereadores, na sua totalidade, passaram a exigir do então prefeito benefícios pessoais. Inclusive os oradores que nós tínhamos elegido pelo nosso partido, o PT, e tinham a obrigação de agir de maneira diferente, dentro da ética. Então esses vereadores foram exigir do Reni falando: “Prefeito, se você não atender o que nós vamos fazer a gente vai te cassar”. O Reni, em vez de fazer o que a grande maioria faz, que é atender a chantagem, optou por outro caminho. Porque você atende a primeira chantagem, aí vem a segunda, a terceira e nunca mais acaba essa situação até o dia em que a vítima da extorsão resolva gravar o chantagista. O Reni simplesmente olhou para os vereadores e disse: “Olha, se quiserem me cassar, podem me cassar. Eu não vou fazer o que vocês estão pedindo. Aliás, estão exigindo. Podem me cassar, fiquem à vontade. Agora, o que eu vou fazer: isso aqui é tudo muito pequeno, todo mundo sabe quem é todo mundo e eu vou para o meio da rua dizer por que vocês estão me cassando”. E continuou: “Eu sei que a população não gosta muito de prefeito, mas gosta muito menos de vereador”.

RD – E que fim deu?

DP – O Reni não só deixou de ser cassado no primeiro mandato, como foi reeleito e terminou a gestão dele. Não houve nenhum tipo de problema com qualquer autoridade que seja e ele anda de cabeça erguida em qualquer lugar do Estado. Mas por que o Reni teve o direito de fazer isso? Porque ele não cedeu à chantagem. O presidente Lula, muitas das coisas às quais ele vem sendo acusado, de irregularidades partidárias e aquele negócio todo, infelizmente é uma regra que estabeleceram no País. Então, sob esse viés, ou eu atendo aquilo que você está exigindo ou serei cassado, enfrentarei dificuldades que não deveria ter, terei obstáculos aos projetos apresentados, enfim, ficará cada vez mais difícil desenvolver o trabalho. E aí o cidadão que tem um mandato, de forma equivocada, mas sendo pragmático, pensa: “Bom, melhor eu fazer alguma concessão do que simplesmente perder o mandato”.  Mas isso acaba se tornando um poço sem fundo.

RD – Isso é corriqueiro e não tem jeito?

DP – Desde que começaram as atividades na ALE/RO nós temos problemas. São muitos, então as coisas não começaram a acontecer de forma equivocada no governo do Cassol, assim como não começaram no governo do Raupp, nem no do Piana... Não é um problema só do Estado de Rondônia, é do País todo e está muito claro. Precisamos mudar o comportamento. Primeiro, disputei dez eleições: eu mais perdi do que ganhei.

RD – Por quê?

DP – Sempre fui acusado de ser ruim de voto. Mas por que sempre fui acusado de ser ruim de voto? Porque nunca tive dinheiro pra fazer campanha. Agora, quando fui eleito não tive de vender o mandato, fazer como alguns deputados que chegaram a passar contrato e reconhecer firma do crime que estavam cometendo. São coisas absurdas! São coisas que precisam ser mudadas. Temos de colocar na cabeça que nossa passagem pelo Planeta Terra enquanto seres humanos é muito pequena nesta vida. É apenas um ponto numa linha infinita. Você tem oportunidade de ficar rico, milionário às custas do poder público? Tem! Agora, vale a pena fazer isso? Vai te causar grande diferença? Por exemplo, eu tenho 52 anos. Por que vou me envolver, caso tenha a oportunidade,  ou mesmo procurasse por ela, numa irregularidade que possa ganhar aí alguns milhões de reais? Eu, sei lá se tenho mais uns cinco anos de vida, dez, quinze ou vinte. Espero ter, igual meu pai que está com 90 anos e eu só tenho 52, isso me daria uma expectativa muito grande. Então não sei quando vou embora daqui. Então prefiro acreditar que é melhor ter tranquilidade para poder dormir sossegado, com a consciência tranquila, a ficar fazendo besteira e pagar um preço muito alto por isso.

RD – Mas e os mais novos?

DP – Quando você tem apenas 20 anos, não vale a pena fazer isso também. Porque os jovens que fazem isso, principalmente os mais humildes, fazem parte dos 11 mil apenados que nós temos que vivem em situação de penúria em nossos presídios. E digo isso porque ninguém vai ficar mentindo aqui dizendo que quem está em nossos presídios está vivendo bem. Eles são masmorras mesmo! Agora não estou dizendo isso como muita gente fala: “Não, só reconhece presídio como masmorra quem já foi preso”. Eu, graças a Deus, nunca fui preso, jamais serei e reconheço nossos presídios, e os de Rondônia não são diferentes, como masmorras! Embora o governador Confúcio Moura tenha feito um trabalho bom para melhorar isso. Então o que temos de ter mesmo é uma linha de comportamento. Ora, se eu sou prefeito, meu compromisso é de prestar serviço à comunidade. A minoria mau caráter dentro da política acaba tendo uma notoriedade maior que as pessoas de bem. Quero fazer um apelo às pessoas de bem que lerão a matéria por curiosidade ou mesmo a fim de procurar algum motivo para me criticar, para que não percam as esperanças, principalmente os jovens.

RD – O senhor se sente num “xeque-mate no xadrez da política rondoniense”, como definido pelo autor da última entrevista que o senhor concedeu?

DP – De forma alguma me sinto num xeque-mate. Até porque, depois de tudo o que contei aqui, ficou claro que as coisas na minha vida politica acabaram acontecendo de maneira natural. Eu não posso responder sem antes agradecer a confiança depositada pelo governador Confúcio em mim por ter pegado um cara sindicalista, e eu não escondo minha característica de jeito nenhum, e me aceitar como vice. O risco que ele correu de perder a eleição foi mais forte do que os benefícios recebidos. Sou muito grato a ele por isso, como sou muito agradecido ao senador Acir que me ajudou nesse pleito, além do deputado [federal] Nilton Capixaba (PTB) que me apoiou nessa questão, deputado Cleiton Roque (PSB), que naquele momento não era deputado, mas já considerado um ótimo militante de nosso partido e outros militantes também. Lembro que recebi um emissário do governador Confúcio Moura perguntando se eu aceitaria o convite para ser vice na chapa dele ou não.

RD – Como reagiu?

DP – Eu respondi: “Olha, eu não posso aceitar um convite que nunca recebi, assim como não posso negá-lo pelo mesmo motivo”. E eles me disseram: “Ah, mas o governador não pode ser submetido a constrangimento”. E eu concordei plenamente com isso. Indiquei: “Então procurem o presidente do meu partido, que é o Dr. Mauro, e se ele achar que a ideia vale a pena irá tocar adiante e falará comigo a respeito disso. Se achar que não, somente ele saberá no que deu e ninguém precisa ter nenhum tipo de constrangimento”. Depois, passadas as convenções, acabei sendo candidato. Qualquer que seja a situação que venha a surgir em 2018 o desejo maior que tenho é um só: dar continuidade ao trabalho que o governador Confúcio Moura fez agora até aqui, há seis anos e quatro meses, e que a gente tenha condições, com ambiente político adequado. Quero trabalhar mais esse ano e quatro meses e consolidar uma série de trabalhos que foram iniciados, além de começar outros. O desejo que tenho é pensando no Estado de Rondônia.



RD – E quais as opções políticas?

DP – No nosso grupo político nós temos duas pretensões de candidaturas ao governo e todas elas legítimas. Há o senador Acir, que é pré-candidato a governador, pessoa a quem tenho muito respeito; e o deputado Maurão, parceiro incondicional do Governo do Estado. O deputado Maurão, como presidente da ALE/RO, ajuda a construir o ambiente, o clima necessário para que tenhamos paz no Estado. Então é um parceiro de primeira hora. Então são duas pretensões legítimas, mas, por outro lado, sou filiado a um partido político e é legítimo que a legenda a qual pertenço tenha as suas pretensões. E eu defendo que o meu partido político esteja preparado para as eleições do ano que vem. Hoje temos um deputado estadual que faz um belíssimo trabalho, um homem de confiança do governador Confúcio Moura, tanto é que graças ao trabalho desenvolvido acabou ajudando a eleger a esposa dele prefeita de Pimenta Bueno, muito bem avaliada nesses primeiros cem dias. Estou falando, claro, do deputado Cleiton Roque. Mas acho que só um deputado estadual para o PSB na ALE/RO é muito pouco. Temos militância, quadros, pessoas que querem ingressar no partido e podemos ter no mínimo quatro deputados na ALE/RO. Para deputado federal o nosso principal candidato, candidato timoneiro e chefe de equipe, é o Dr. Mauro. E vamos depositar nossas fichas nele.

RD – Dá para ir além?

DP – Acredito que se nós fizermos o trabalho de casa, com organização partidária, não vamos eleger apenas o Dr. Mauro. Temos condições de eleger o Dr. Mauro e pelo menos mais um deputado federal: o PSB tem condições pra isso. Temos uma candidatura posta como pré-candidatura ao Senado, dependendo da conjuntura, que é a do nosso querido prefeito de Ji-Paraná Jesualdo Pires.  É um quadro de primeira grandeza! No que diz respeito a mim a única preocupação que tenho é terminar bem este mandato. Repito: sou muito grato à confiança que o governador Confúcio Moura tem me dado, às oportunidades que tem me concedido e o apoio que nossos secretários tem me franqueado permitindo o trabalho de parceria. Por exemplo, eu me envolvo nas questões de Segurança Pública do Estado. E nós temos um secretário de Segurança maravilhoso!  Uma equipe muito boa nesse setor específico.

RD – Se envolve como?

DP – Tendo a oportunidade de dar a minha contribuição lá e isso para mim é muito importante. Há vários projetos que estou desenvolvendo, além de outras ideias. Todo dia há um insight novo, sempre procurando fazer o melhor. O desejo que tenho é de fazer o melhor com relação a esse mandato. Se eu serei candidato a alguma coisa ou não a conjuntura do ano que vem é que irá dizer. Posso ser um dos quatro deputados estaduais que acredito que o partido consiga eleger; posso ser o segundo deputado federal, além do Dr. Mauro como primeiro, que é campeão de votos; posso ser o candidato ao Senado daqui a pouco, caso meu querido prefeito Jesualdo resolva não ser e posso até mesmo ser candidato a vice-governador de novo, quem sabe?



RD – E candidato ao Governo de Rondônia, por que não?

DP – Eu só não vou ser candidato a governador. Porque o meu partido tem um compromisso com o senador Acir. E eu não gosto de ficar enrolando ninguém. Tenho muito respeito pelo Maurão, mas ele sabe que o meu partido tem um compromisso com o senador Acir. Quem aproximou o senador Acir do PSB fui eu. Uma confidência aqui: o senador Acir não morria de amores pelo Dr. Mauro e também não morria de amores pelo Jesualdo e hoje são amicíssimos e parceiros políticos. Essa aliança política deu funcionou e nós ganhamos e reelegemos o prefeito de Ji-Paraná. Atualmente há uma relação de confiança muito grande e o nosso querido Jesualdo não aceita, de forma alguma, cogitar que não seja o partido faça qualquer coisa que não seja ajudar a eleger o senador Acir. Aqui em Porto Velho o PDT, partido do senador Acir, foi fundamental para que o Dr. Mauro fosse eleito na primeira eleição. A gente tem de ter memória para as coisas porque o Dr. Mauro foi para o segundo turno na eleição que ganhou vencendo a Mariana [Carvalho, hoje deputada federal pelo PSDB] no primeiro com menos de um por cento dos votos da Capital.

RD – E o PDT foi responsável por isso?

DP – Sim, porque se o PDT não estivesse com o Dr. Mauro ele não teria sequer ido ao segundo turno. E não indo ao segundo turno, ele não teria chegado à prefeitura. E agora na campanha à reeleição do Dr. Mauro tivemos a Ana Maria concorrendo como vice. E ela teria uma reeleição garantida como vereadora, mas mesmo assim o PDT foi para o “sacrifício”. Esse tipo de coisa a gente não pode abrir mão de forma alguma. Agora, o desejo que tenho, que expressarei aqui, é que o senador Acir e o deputado Maurão encontrem o ponto de equilíbrio e façam com que a gente não tenha dois candidatos.



RD – Por que não pode haver dois candidatos do mesmo grupo?

DP – Porque se nós tivermos dois candidatos podemos repetir no plano estadual o que ocorreu em Porto Velho. Em Porto Velho, o Dr. Mauro candidato à reeleição, com legitimidade para isso, embora não tenha obtido o sucesso eleitoral, poderia ter o apoio do PMDB e ganhado a eleição se considerarmos a soma do resultado final no primeiro turno. Não podemos mais cometer o mesmo erro a vida toda! Então podemos correr o risco de ter duas candidaturas no nosso campo, dividir nossa equipe.

RD – E o resultado disso seria?

DP – Colocaria em risco a continuidade do trabalho do Dr. Confúcio, que é o que mais quero. Então temos duas possíveis candidaturas, tenho respeito pelas duas, se por ventura tiver de assumir o Governo do Estado serei o mais republicano possível com ambos e eles que tratem de fazer a leitura certa do momento para que a gente não tenha prejuízo.



RD – O senhor já costurou acordos internos ou briga para ser conselheiro do Tribunal de Contas?

DP – Eu nunca cogitei ir para o TCE/RO. Agora, já me cogitaram para muita coisa boa. Tem gente que quer minha candidatura ao Senado; outros ao governo; ao próprio TCE/RO e eu fico muito feliz porque são só coisas boas. E se essas coisas boas  estão sendo desejadas é porque as pessoas gostam de mim ou avaliam como algo positivo o trabalho que estou fazendo. Já fui procurado sim em relação ao TCE/RO e disse o seguinte: “Se por acaso surgir a vaga eu não sou hipócrita de dizer que não”. Sou servidor público e passei a vida toda trabalhando nessa condição. Mas a minha condição de servidor público é pior do que a de meus colegas.

RD – Como assim pior?

DP – Pior porque fiquei fora de sala de aula, perdi progressão, então meu salário é quase a metade do salário do pessoal que está no dia a dia, o que está correto. Porque eles fizeram por merecer. Então se surgir a oportunidade de ir ao TCE/RO, e sei que posso dar uma belíssima contribuição lá, irei.

RD – E tem agido internamente para isso?

DP – Nada disso. Não é minha vontade pessoal e nunca dei um só passo atrás disso e muito menos darei. Porque não fui eleito vice-governador de olho numa vaga no TCE/RO. Agora, ninguém precisa ser hipócrita de ficar desconversando o óbvio. Todo mundo que vai ler a entrevista irá entender que, caso isso ocorra, será devido a uma conjuntura política que deverá afastar um cidadão que pode vir a ser governador para beneficiar outro candidato, uma situação prática. Até porque só lê matéria sobre política quem gosta de política e pessoas inteligentes. Quem não é inteligente não gosta de política. Então repito: se vier uma oportunidade não vou dispensá-la, mas não estou trabalhando pra isso.



RD – Tirando a amizade e o partidarismo, como o senhor avalia a gestão do ex-prefeito Dr. Mauro Nazif?

DP – Dr. Mauro fez uma boa gestão. Só que o Dr. Mauro pecou muito em dois aspectos. O primeiro deles foi ter deixado de ser o Dr. Mauro  que nós sempre conhecemos. O Dr. Mauro deputado estadual, junto comigo, e também o deputado federal, era um homem presente em todas as atividades da vida pública da cidade. O Dr. Mauro como prefeito procurou – e é compreensível isso – mergulhar nos problemas da cidade e, por problemas de ordem familiar e aquele negócio todo, simplesmente sumiu do meio das ruas.

RD – Isso o prejudicou de que maneira?

DP – O povo quer ver as suas lideranças, então esse foi o grande erro do Dr. Mauro. O outro erro, que reputo como erro, foi não ter um bom diálogo com a imprensa, trabalhando a imagem, mantendo seu legado. Vou comparar o Dr. Mauro com o Dr. Confúcio. Um ano antes da eleição do Dr. Confúcio até o próprio partido dele não acreditava muito na reeleição, tanto é que tentou trazer outras pessoas para que fossem candidatas pelo PMDB. É só olhar aí no Google da vida que você irá encontrar isso, então acredito não estar cometendo nenhum tipo de indiscrição.

RD – E por que o PMDB mudou de ideia?

DP – Acredito que pelo fato de o governador ter uma imagem preservada e prova disso foi ter sido reeleito. Já o Dr. Mauro pegou uma prefeitura que não tinha sequer uma patrol com roda na Secretaria Municipal de Obras. E eu estou dizendo isso porque fui até lá e vi pessoalmente. O Dr. Mauro deixou a prefeitura com mais de 300 equipamentos. Hoje, o prefeito Hildon desde o primeiro dia que assumiu o mandato, teve a oportunidade de fazer trabalho de limpeza, está fazendo um belíssimo trabalho e inclusive quero parabenizá-lo por isso. Há alguns contratempos aí, mas isso é da vida pública mesmo. Está fazendo um belíssimo trabalho, mas o Dr. Mauro não teve a oportunidade que o Dr. Hildon está tendo para fazer esse trabalho.

RD – Por que não?

DP – Porque levou três anos para ajustar a economia do município e para fazer aquisição dos equipamentos. Mas era algo que não havia quando ele assumiu a gestão.  E ele deixou para a próxima administração e esta terá todas as condições de trabalho. Dr. Mauro foi o único prefeito que eu conheço, e eu conheço Porto Velho há 20 anos morando aqui, que fez pavimentação com recursos próprios. E depois, num segundo momento, o governador Confúcio Moura passou a fazer parceria com a prefeitura e foram feitos, em 2014, 2015 e 2016, uns cem quilômetros de asfalto. Agora, o que ninguém nunca comentou é que 80% da pavimentação realizada foi feita pela Secretaria Municipal de Obras. Foi a Prefeitura de Porto Velho! Talvez só o Chiquilito [Erse, ex-prefeito] tenha feito algo pela cidade de Porto Velho em termos de investimento próprio.

RD – Então ele não cometeu erros, só equívocos em termos de marketing e publicidade?

DP – É claro que erros foram cometidos pelo Dr. Mauro, porque se não tivessem sido cometidos, ele era o prefeito hoje. Agora, uma coisa que tenho certeza que posso dizer em público, é que o Dr. Mauro é um dos poucos prefeitos que, ao terminar seu quarto ano de mandato, já teve as três últimas contas analisadas, apreciadas e aprovadas pelo TCE/RO. Não tenho a menor dúvida que as contas dele do ano de 2016 também serão aprovadas. Dr. Mauro foi um gestor muito austero: fez um trabalho à altura do que podia fazer, mesmo que a gente sempre possa fazer melhor. Eu acabei de fazer observações sobre isso. Ele é um político probo. A gente vê aí pessoas fazendo acusações de forma leviana, mas eu convivi com o Dr. Mauro quase dez anos. Oito anos como deputado estadual e dois como dirigente do Sintero enquanto ele ainda membro da ALE/RO. É um cara que eu nunca vi se apropriar de um copo d’água em benefício próprio. Pelo contrário, já o vi fazendo sacrifícios monstruosos colocando, literalmente, a cara a tapa para defender os interesses da população. É uma pessoa muito digna e espero que, qualquer que seja o caminho que ele escolha em 2018, alcance seus intentos. O que eu sei é que estarei entre seus amigos e apoiadores.

RD – Muito obrigado, vice-governador.

DP – Eu que agradeço.

Autor / Fonte: Rondoniadinamica

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