RD Entrevista – Leo Moraes, ameaçado de morte no Estado da pistolagem



Texto.:
Vinicius Canova
Fotos.: Gregory Rodriguez

Porto Velho, RO – Num Estado onde políticos são executados no meio da rua, a qualquer momento, receber ameaça de morte pode não ser exatamente apenas uma advertência ou mera tentativa de intimidação. O jovem deputado estadual Leo Moraes, do PTB, diz ter sido vítima de avisos tenebrosos enquanto elaborava seu parecer na condição de relator do processo que apurava quebra de decoro parlamentar por parte de edis acusados de envolvimento em crimes revelados pela ‘Operação Apocalipse’ ainda em 2013.

Este é um dos pontos abordados nesta entrevista com o parlamentar que, aos 33 anos, já sabe exatamente quanto tempo ainda tem de atividade político-partidária. 

“Mais quinze anos e eu paro”, revela.

Filho emotivo, se emociona  e interrompe uma de suas respostas ao descrever a importância do pai em sua biografia.

Além disso, Moraes relata sua experiência como candidato a prefeito de Porto Velho em 2016; sua visão sobre as baixarias deflagradas e intensificadas durante o segundo turno; posiciona-se sobre a acusação de compra de votos e fala a respeito de muitos outros temas nesta quinta edição de RD Entrevista, publicada exclusivamente pelo jornal eletrônico Rondônia Dinâmica.


No diálogo ou na porrada, Leo Moraes diz não ter medo de briga 
Foto.: Gregory Rodriguez (Rondônia Dinâmica)


Perfil e trajetória

Leonardo Barreto de Moraes nasceu em 11 de janeiro 1984. Formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), começou sua carreira política durante a vida acadêmica,  atuou no Centro Acadêmico de Direito, onde se tornou secretário-geral do Diretório Central dos Estudantes, entidade que representava 25 mil estudantes. Ele  chegou  a ser presidente desse mesmo Diretório, onde comandou várias ações voltadas para melhoria da qualidade de vida da sociedade. Como liderança estudantil, concluiu que as ações dos acadêmicos devem transcender os limites  da instituição de ensino. Em 2012, já filiado ao PTB, conquistou seu primeiro mandato na Câmara Municipal de Porto Velho, eleito com 2.300 votos, tornando-se, em seguida, líder da bancada do seu partido. Em 2014, apresentou-se como candidato a deputado estadual, restando eleito com 10.275 votos, parlamentar com maior expressão de votos em Porto Velho. Em 2016, foi candidato à Prefeitura de Porto Velho, derrotado no segundo turno pelo prefeito Dr. Hildon Chaves, do PSDB.



Interesse pela política

Rondônia Dinâmica –
Deputado, quem é Leo Moraes e como surgiu o interesse pela política?

Leo Moraes – Cara, eu vim pra  Rondônia com três meses de idades. Sou nascido em Foz do Iguaçu, mas nem falo que sou paranaense pelo tempo de Porto Velho. Tenho 33 anos de idade e é o mesmo tempo em que estou estabelecido em Porto Velho com a minha família. Meu pai se formou em Direito no Rio Grande do Sul e... Era advogado e conheceu minha mãe em Foz. Minha mãe era bancária, trabalhava lá. E aí vieram para cá. Meu pai veio fazer o concurso para a Primeira Turma da Polícia Civil do Estado. Ele foi aprovado, fez Academia e iniciou os trabalhos aqui em 1984. Eu tive toda minha infância aqui, inclusive muito rica no sentido de atividades lúdicas, de lazer, de esporte, de brincar na rua com liberdade em Porto Velho, coisa que é hoje é difícil de ver. Isto é, quando eu falei até mesmo durante a campanha, foi o que aconteceu na minha vida: empinava papagaio, jogava bola na rua no cascalho, perdia direto a ‘tampa’ do dedo do pé, andava de ‘bike’ na Praça do Santo Antônio, tudo isso... Tomava banho de chuva e por aí vai. Estudei no Chapeuzinho Vermelho, no Laura Vicuña, Pitágoras e Dom Bosco. Fui fazer faculdade em Curitiba. Fiz Direito na PUC. E durante o tempo de faculdade eu me envolvi de forma muito ativa no movimento estudantil. Fui do Centro Acadêmico do CASP, Centro Acadêmico Sobral Pinto, responsável uns dois mil e trezentos alunos. E depois fui secretário-geral do Diretórios dos Estudantes da PUC-Paraná, com mais de trinta mil alunos por aí, não sei exatamente quantos devem haver hoje. Depois montamos uma chapa de oposição, com muita garra  e vontade realmente de mudar, tendo apoio de professores para conseguir ‘rodar’ o material. E... Nós ganhamos a eleição contra os grupos que detém até hoje a hegemonia do movimento estudantil brasileiro. A UJS, por exemplo, e todas as suas ramificações. A UJS é a União da Juventude Socialista, braço do PT, do PCdoB. Até hoje eles são os mais ativos, organizados e que detém maior liderança nos congressos.  E lá nós fizemos um trabalho bem bacana de transpor os muros da faculdade e se relacionar com o cidadão, com moradores daquela região que era o Prado Velho, conhecida como Vila Pinto, o maior bolsão de pobreza, talvez o único grande bolsão de pobreza da Grande Curitiba. E nós fizemos um trabalho com o CATA (Central de Apoio aos Trabalhadores Ambientais), porque lá havia muita gente que pegava material de reciclagem e não tinha o menor suporte. E fizemos, a partir daí, um trabalho de padronização e foi bem bacana. Havia dito que participaria só uma vez da Presidência e cumpri: quando foi agosto, meu mandato acabou acho que em julho salvo me engano, ou me formei em julho e meu mandato acabou em junho, enfim, mas agosto eu peguei um avião e vim embora.  Nunca mais voltei. Tenho só a relação com os amigos  e tudo, porque é o que fica: amizade, consideração e carinho.

RD – E em Rondônia?

LM – Daí vim pra cá pra Porto Velho, porque sempre tive esse interesse. Meu irmão mais velho mora lá [em Curitiba, eu sou o irmão, o filho do meio, nós somos em três. Meu irmão mais velho foi pra lá com quinze ou dezesseis anos, hoje ele tem 36. Então ele nunca quis voltar. E eu já fui  com a certeza de  que iria voltar. Essa era a minha intenção, meu sentimento. E depois que voltei trabalhei aqui durante quatro anos, também fiz trabalho social, fui candidato a vereador pela primeira vez, me elegi com  2.300 votos por aí e o restante já se tornou publico.

RD – O que o senhor poderia destacar em relação à sua atividade parlamentar tanto na Câmara Municipal de Porto Velho quanto na Assembleia?

LM – Cara, com todo o respeito, meu mandato sempre foi muito dinâmico e, principalmente, participativo. Fui o primeiro a interagir nas redes sociais, ou um dos primeiros, eu não me lembro de ter outro antes. E foi sempre assim, pedindo opinião e perguntando a respeito do que a população precisa. A gente continua a fazer isso, em outra escala, mas, sem sombra de duvidas, é uma de nossas marcas. De atuação, principalmente a fiscalização. Como eu faço no Estado e fiz no Município de Porto Velho. E é de forma muito acentuada, por exemplo, como a denúncia dos tubos de PVC, que eram milhões, trinta e poucos milhões. Eles [gestores] devolveram.  Superfaturamento nas cestas básicas na época da enchente, da alagação, também tiveram de devolver o dinheiro por conta de atuação nossa. O Ministério Público (MP/RO) foi atuante, diligente, rápido e célere. E também teve o caso da iluminação natalina, que foi do mesmo jeito. Acho que [fiscalizar] é a atividade primaz junto com legislar, criar leis, onde um vereador ou deputado, junto com sua equipe, desenvolve a política do jeito que a população espera.  Mas fiscalizar, poucos fiscalizam, velho. Poucos fazem. A gente ainda vive muito através de clientelismo ou fisiologismo. E na atividade parlamentar nós tivemos o voto aberto na Câmara Municipal, fundamental frente até mesmo do Congresso Nacional. Impedimos a retirada de licença-prêmio dos servidores públicos; criamos a POLITEC, polícia técnico-científica, que dá maior elucidação nos casos, cenas de crime e por aí vai. Conseguimos, e defendi desde o primeiro dia de mandato, foi minha principal bandeira, a questão da posse dos concursados aprovados, afinal os caras fizeram concurso, fizeram inscrição, pagaram as taxas, estudaram, se capacitaram e abdicaram de muita coisa pra ser aprovado e não ser chamado. Não tem cabimento isso! Sou autor do projeto que regulamenta apenas 30% dos números de cargos comissionados na Administração Pública. Então acho que são projetos de vanguarda, audaciosos, inovadores... O primeiro gabinete móvel da história. Fui o vereador que mais economizou dinheiro público na Câmara de Porto Velho. Apresentei o projeto do Conselho Municipal da Juventude, cobrei a implementação, e agora dizem [Executivo] que vão implementar.  Muita coisa, cara. Projeto Vereador Por Um Dia e tantas outras atividades que, com o tempo de nossa conversa, não vou conseguir apresentar.

Mandatos incompletos

RD – Falando nisso, o senhor cumpriu meio mandato na Câmara de Vereadores e, se tivesse sido eleito prefeito de Porto Velho, teria cumprido apenas metade do mandato como deputado. Quando seus eleitores poderão confiar que o senhor irá cumprir um mandato inteiro para o qual foi eleito?

LM – Quando a população estiver satisfeita com a Administração Pública e seus representantes! E eu acho que não será tão cedo. Isto é, eu tenho direito de me tornar e ser inquieto e querer transformar a realidade. A gente vê pessoas com três, quatro e até cinco mandatos que, com todo respeito, não fizeram um terço do que nós fizemos em dois anos. E eu acredito muito no poder de se indignar. E também trabalhar por meritocracia de alguma maneira. Por quê? Quando estou no Exército, por exemplo, o cara que é alçado a outros postos é porque mereceu. Ele foi promovido. Na iniciativa privada também. A pessoa começa como auxiliar de limpeza, quando se dá conta é gerente-geral e até CEO de uma grande empresa. Temos vários casos disso. E aqui também tem de ser igual. Isto aqui não é tão somente uma atividade profissional, é uma atividade-meio de transformação da sociedade. E ainda não inventaram, velho, nada, nada no mundo melhor do que a política para transformar a realidade. Ainda mais num regime democrático, como o que nós vivemos, então eu tenho sim o direito de sonhar e se puder e se deixarem eu vou virar presidente da República! Até porque o Temer está desgastado aí, velho, e eu tô vendo uma brecha e se deixarem eu serei candidato a presidente. Porque eu sonho e, se você não tiver um ideal, esse idealismo, a parte poética e, lógico, ações que denotam o que você realmente pensa, a política não é pra você, velho. A política é lugar para servir acima de qualquer coisa. Lógico, muitas vezes... Hoje, por exemplo, eu tô cansado. Hoje, hoje, neste dia de hoje estou cansado. Porque são muitos desapontamento às vezes.  Mas eu sei que vou dormir e amanhã acordo ‘zerado’, bicho! ‘Zerado’ pra continuar trabalhando, ser o primeiro a ficar aqui e um dos últimos a sair e motivado, motivado! Porque enquanto eu tiver sendo útil à sociedade as pessoas irão reconhecer. Se algum momento eu deixar de ser útil, certamente deverão me trocar. E assim funciona: essa é a ciranda da política e tomara que o cidadão cada vez mais utilize de seu poder de voto, de voto consciente.



RD – Aliás, já que tocamos no assunto das eleições 2016, o senhor era considerado fortíssimo candidato a assumir a prefeitura mesmo disputando um cargo no Executivo pela primeira vez. O que você extrai de melhor do ano passado?

LM – Cara, foi fenomenal. Houve um crescimento pessoal, profissional, das minhas atividades parlamentares. E principalmente reconhecimento de que o caminho é esse, que a gente deve se comunicar, meter o pé na lama e isso eu sempre fiz. É... Eu fui candidato dentro de um ajuntamento de ideias e interesses. Eu não construí a candidatura por conta própria ou vaidade. E isso foi muito bonito, haja vista minha campanha ter sido uma das mais modestas. Com grandes dificuldades, mas sem sombra de duvidas fui o que mais andou, mais pisou em lama, mais se comunicou, mais se expôs e mais colocou a mão à palmatória. E, de alguma maneira, desprovido de uma peça de marketing. De um produto a ser vendido na gôndola do supermercado.  As pessoas já me acompanhavam e os votos que nós obtivemos, nós, todo o grupo, foi reconhecimento do que já havíamos feito. Então foi gratificante. E principalmente eu saí maior enquanto pessoa. Sabedor das necessidades da população e mais humano. E isso é muito legal, acho que acrescenta, nos faz crescer. E quando você faz algo e se entrega totalmente tendo a consciência de que fez o seu melhor, não sente o resultado negativo. Eu ouço muito falar: “Ah, Leo, depois da derrota tem o coice do cavalo, o coice da derrota”. Eu não senti isso em momento algum, porque sei que deixei meu máximo na campanha. Fui pleno no que fiz, abundante. Lógico, tivemos os acertos. Tivemos falhas? Muitas! Sem sombra de dúvidas, mas dentro de um projeto de campanha política. E essas falhas são diminuídas numa condução de mandato. Então sou um cara extremamente realizado e agradecido. É minha terra, velho. Quando falo, e é ruim falar, “Ah, é a terra que eu vou morrer”, mas é o lugar que, provavelmente, vá ficar toda minha vida. E eu sempre enquanto puder vou tentar contribuir. Porque Porto Velho é uma das capitais mais descuidadas, abandonadas do Brasil! E a gente não pode negar isso. Eu lembro que, durante a campanha, derrubaram um  candidato a prefeito porque ele usou as palavras erradas, mas tentou se comunicar no sentido de dizer: “Gente, Porto Velho precisa mudar. Precisa sofrer uma revolução de cada um”.


Baixarias no segundo turno em 2016

RD – No segundo turno o cenário mudou de maneira imprevisível. Ninguém apontava o atual prefeito Dr. Hildon Chaves (PSDB) como possibilidade real de chegar à prefeitura. A partir daí, a disputa perdeu um pouco a mão das propostas e passou ao campo das ofensas, das acusações mútuas e do desrespeito. Por que isso ocorreu, deputado?

LM – Veja bem, Vinicius. É... No primeiro turno quem sempre fez a campanha diminuindo ou atacando e ofendendo adversários não fui eu. Vide retrospecto da campanha: é muito claro. Quem chamou de ladrão, de corrupto, safado, disso, daquilo, não era eu. Não fui eu! E todo mundo conseguiu vislumbrar quem foi. O sujeito apontava o dedo na cara de todo mundo e por aí vai. No segundo turno não foi diferente. Em que pese as críticas que foram proferidas, pois nunca autorizei ou influi para que deliberadamente atacassem pessoas, honra ou qualquer coisa. Sempre tentei de alguma maneira inibir e coibir que a militância ou pessoas ligadas à campanha assim o fizessem. Até porque não teria cabimento, pois da minha boca não saiu palavras ou ofensas e ataques pessoais. Tudo o que disse tinha ligação com a personalidade, ao candidato, ao contrário do que acontecia comigo. Falaram do meu pai, que não estava aqui para se defender [o pai de Leo Moraes,, Paulo Moraes, faleceu em outubro de 2015] até porque não seriam homens de falar na frente do  meu velho. E isso não se faz, bicho! Atacar a pessoa ou sua família não tem nada que ver com processo eleitoral. Você pode ter certeza, quando for pesquisar em relação ao que estou falando,  quando falei de ‘A’, ‘B’ ou ‘C’, qualquer coisa ligada a determinado candidato, tinha relação com ele intrinsecamente e o que já havia feito na vida pregressa. Não atacavam  a mim. Atacavam ao meu pai, por exemplo, que não estava aqui. E outras vezes foram falar da minha mãe. E acho que atacar família, bem... A família é um bem que é inalienável,   tem de estar protegido e guardado sempre. É o que nós temos de melhor e nos identifica. Identifica quem nós fomos, somos e seremos. Então isso não se faz. Cada qual... Bem... Acredito na Lei da Semeadura: “Aqui se faz, aqui se paga!”. Eu estou muito tranquilo em relação a isso. É vida que segue. Nós temos muito mais o que fazer do que se apegar a isso.

Hildon Chaves, um produto

RD –
O senhor acredita que tinha sido derrotado no segundo turno por quê?

LM – Acredito que tenha sido [derrotado] por uma fórmula muito bem feita. Um produto que pode ser trabalhado hoje pelo fenômeno, o advento das redes sociais. Existe um jargão, um termo muito usado na Europa e nos Estados Unidos, que foi o termo de 2016: o “After Trust”. É o pós-verdade, meu velho! Não adianta, é a crença pessoal em detrimento da realidade dos fatos. Isto é, se você vender um produto, e a gente vê um monte de papo de pessoas ligadas à política anunciando ações, mas na verdade não existem. Então o cara tira foto, sorri e pronto, na cabeça dele fez política. Não conhece o que de fato acontece. Você enche de ar um saco de pão até então vazio e ele acaba se projetando, claro, desde que haja uma cena midiática, uma construção de militantes virtuais para tal. Eu acredito que a fórmula do adversário foi perfeita. E quero deixar claro que não vou tecer qualquer comentário acerca da gestão nesta entrevista, até por um compromisso moral e pessoal de que, em cem dias, vou me ater a compreender como está sendo feita a política pública aplicada em Porto Velho. Justamente para não dar brecha para que falem que é o choro da derrota ou de quem ainda não aceitou o resultado do processo. É... Acho que a fórmula, o produto de venda do mercado, foi muito bem feito. Alguém que é considerado bem sucedido na vida privada, ex-promotor de Justiça que falava que prendia todo mundo, de um partido que dizia ser o ‘patriarca’,  o ‘padrasto’ da cassação da Dilma, enfim, o partido que seria o paladino da moralidade, que a gente vê hoje  que está mais chafurdado, mais enlameado até mesmo que o partido a qual vivia denunciando. É uma coisa muito clara. As investigações apontam e hoje quero dizer que não adianta um partido apontar o dedo para o outro. São pessoas. E enquanto não tiver uma reforma de verdade na política e não a ‘Mandrake’ que foi aprovada no Congresso Nacional, vai continuar desta maneira. Uma campanha muito volumosa nos derrotou, com muitos recursos. Um partido que tem uma militância e se você colocar tudo isso na balança, sobretudo as pessoas insatisfeitas e indignadas com a política, compreenderá o resultado. E a negação à política de alguma maneira contribuiu para a eleição do adversário. Infelizmente, muitas vezes, preferem apostar no desconhecido do que reconhecer o que já foi feito. Se você colocar toda essa fórmula e os ingredientes no liquidificador teremos um resultado midiático muito grande.

RD – O senhor é filho de dois políticos conhecidos no Estado de Rondônia. Seu pai, Paulo Moraes, foi deputado, vereador e assumiu a Segurança Pública na gestão do ex-governador Ivo Cassol. Sua mãe, Sandra Moraes, assim como seu pai, foi presidente da Câmara Municipal de Porto Velho. De que maneira eles influenciaram sua vida política?

LM – Eles me influenciaram muito na formação do caráter, valores que são inegociáveis. A palavra que é dada, é cumprida. Pensar em pessoas. A vida é curta, faça seu melhor. Trate bem e ajude quando puder e faça o máximo sem precisar ser visto. Contribua. Mais do que isso: o apego à família. Como já disse, a própria memória que você tem da sua existência é a família. Esses valores, princípios familiares e até cristãos – estes muito por parte da minha mãe – carrego comigo de forma intransigente e irretocável. Em relação à política, meu pai sempre foi um sujeito muito politizado. Meu pai também foi egresso de movimentações de rua. Meu pai, durante a ditadura, participava de grandes eventos e manifestações do Rio Grande do Sul e tinha uma relação muito próxima com Brizola. Foi buscar o Brizola no aeroporto quando chegou aqui, inclusive. Lógico, o Brizola com sua corrente, com sua doutrina...   E, dessa maneira dentro da política, se você imaginar são princípios fundamentais e isso eles me ajudaram e auxiliaram muito. Minha mãe, como presidente da Câmara em Porto Velho, estão aí os funcionários daquela Casa, lá da Câmara, para comprovar e contribuir com o que estou dizendo nesta entrevista. É... Sem hesitar, posso dizer que foi a melhor presidente da história da Câmara Municipal. Ela não fez ‘garibada’, não mudou um piso por outro. Ela não pintou apenas. Ela fez toda a reforma, contribuiu com o abono natalino, devolveu dinheiro aos cofres públicos e hoje, de alguma maneira, é muito respeitada por conta disso. Então esse aprendizado, esse legado, muito me ajuda, velho. O meu velho foi, talvez, uma das maiores referências do setor de Segurança Pública da história de Rondônia. Meu pai quando saiu da Polícia Civil, quando saiu da política, o policial tinha o terceiro maior salário do Brasil. Tinha equipamentos, o mínimo, que já não era bom, mas havia o mínimo de condições de trabalho nas delegacias. De lá pra cá é uma derrocada muito grande, estagnação. Muitas vezes lideranças emergem, mas às vezes não fazem um trabalho que é de doação à entidade, à instituição. Tanto que tenho uma ligação umbilical, um compromisso também familiar em relação à polícia. Inclusive foi a única categoria que avançou no ano passado aqui na Assembleia com a integralização da periculosidade aos servidores da Polícia Civil a partir de 2018. Então foi uma grande conquista, e só conquista quem luta. Eu não vou conquistar tudo que quero, mas vou lutar por tudo que acredito. E é isso que eu faço.



A morte do pai

RD –
Falando nisso, o senhor acompanhou o declínio da saúde de seu pai até que, em outubro de 2015, ele veio a falecer. De que maneira isso afetou sua vida pessoal e profissional, deputado?

LM – Cara... Meu pai sempre foi um amigão, né, ‘véio’? Era referência de tudo. Nunca cuidou da saúde dele. Era um ‘vida louca’ em relação a isso. [Emocionado, pausa a fala] A pergunta que você fez é sobre o que mesmo?

RD – A morte do seu pai e as consequências em sua vida pessoal e profissional...

LM – Na vida política não me afeta porque tenho a minha identidade e, mais do que isso, minha doutrina, o que sigo e acredito. Fui forjado na militância estudantil, na rua e se tiver que entrar em Reitoria como nós fizemos, ficar quarenta dias acampado até a gente conquistar o que queríamos, a qualidade de ensino, enfim, vou fazer! Quanto à vida política e até mesmo na campanha também não influenciou. Uma coisa é certa: eu perdi o meu melhor amigo. O homem que eu mais amava na minha vida.



Acusações

RD – Em março do ano passado o senhor foi absolvido pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RO) da acusação de compra de votos, que inclusive envolvia a estrutura do sindicato dos Delegados da Polícia Civil de Rondônia. Hildon Chaves, à época seu adversário, disse em um dos debates que a questão não havia terminando, pois um recurso teria sido apresentado em Brasília e o senhor correria o risco, inclusive, de não concluir o mandato como parlamentar. Em que pé está essa situação?

LM – Mais do que isso, Vinicius. Ele na verdade falou que eu estava quase cassado. Que iria ser cassado nos próximos dias. Assim com disse que eu havia votado um Projeto de Lei que prejudicava servidores. E eu nem deputado era. E nem existiu esse projeto que ele disse na legislatura passada. Então, é o que eu te falo, é o ‘After Trust’. Tem militância virtual, pessoas que contribuem, que são pagas muitas vezes e acabam repassando informações inverídicas. Que nem o Trump fez com o Barack Obama em várias questões.   O processo que aconteceu foi uma acusação de utilização da estrutura do sindicato  e nós ganhamos aqui por seis votos a zero. O Ministério Público Eleitoral (MPE/RO) recorreu e está em instância superior tramitando. Não tenho preocupação nesse sentido justamente por ter a consciência muito tranquila. Agora, quem está suscetível a isso? É quem compra briga como a gente fez na administração municipal. Sofri grandes e muitas denúncias. E não vai ser diferente. Então quando eu falo que a gente tem de trabalhar para atender as pessoas e dormir tranquilo, esse é o mote. Porque se você for se apegar a esse tipo de situação, é extremamente delicado. Acho que as instituições cumprem com o seu papel, cada vez mais com muita qualidade. Sempre falo isso, publicamente também. Tribunal de Contas, Ministério Público a gente tem de exaltar! E lógico, tem de investigar e apurar. Isso serve para todo mundo. Fico muito tranquilo e seguro porque houve unanimidade no julgamento aqui.  O resultado foi seis a zero, ao contrário do que o adversário havia dito naquele momento. E é isso que temos de fazer, preservar a verdade. Senão o tiro conspira contra você.

Ameaça de morte

RD –
O senhor fez mais inimigos na política quando resolveu concorrer à Prefeitura de Porto Velho ou relatando o processo da ‘Apocalipse’ na Câmara de Vereadores?

LM – Ambos. Ambos... Eu sofri , de quem eu não sei, não posso falar, mas sofri ameaças de morte no processo. E o presidente também foi amedrontado naquela oportunidade e se manteve firme, que foi o vereador José Wildes [não reeleito]. E eu acho o seguinte: embora muitas vezes não tenha o reconhecimento que deveria, porque acho que trabalho muito bem, sempre fiz o que pude e fui no caminho correto. Tenho que melhorar pra cacete, muito! Mas quem não tem inimigos na política, desconfie! É porque não  contrariou interesses particulares em detrimento da coisa pública. Desconfie! Foi assim que nós fizemos. Fui o vereador que mais apresentou requerimentos, fez projetos de leis, projetos de resolução e tantas outras coisas. Na Assembleia não tem sido diferente.

RD – Falando nisso, em nosso último encontro, em novembro de 2013, o senhor – ainda na condição de vereador – conversou conosco a respeito do desfecho da votação de seu parecer no caso ‘Apocalipse’. O senhor disse, à época, que tinha convicção, baseado em claras evidências apuradas no processo, que pelo menos três dos cinco vereadores acusados tiveram participação nos crimes apontados pela operação e por isso opinou pela perda de mandato desses edis. Passados mais de três anos do episódio, o senhor continua convencido de que vereadores de Porto Velho praticaram crimes?

LM – Diga-se de passagem, antes de qualquer coisa, nós demos todo o lastro probatório, toda ampla defesa e contraditório. Tanto é que todas as investidas contra o procedimento que nós realizamos foram negadas. Infelizmente, na condução da sessão, a qual não era eu o condutor, parece que não fora seguido o rito, foi judicializado e até hoje não está resolvida a questão. Tínhamos cabais, claras evidências da participação de recursos na questão de estelionato. Estava muito claro, a meu ver. Essas evidências vinham ao encontro das denúncias formuladas. Nós tínhamos de apurar naquele momento o quê? A quebra de decoro parlamentar. E decoro advém no momento do seu mandato, mas também antes e durante a campanha. E assim foi feito. Lógico que o Plenário é soberano.  E isso a gente tem de respeitar. A única chateação que tenho é por conta de  ter havido uma judicialização através do rito da sessão e  o processo acabou perdendo o objeto porque já acabou a legislatura, já estamos em outro mandato, infelizmente.

RD – O senhor atua bastante por aprimoramento no setor de Segurança Pública e melhorias à categoria. Com a morte do prefeito de Candeias do Jamari, relembrando também o assassinato do ex-prefeito de Ministro Andreazza Neuri Persch, Rondônia relembra seu período de pistolagem, com execuções sumárias no meio da rua e crimes sem resposta. Como o Estado pode solucionar essas questões, deputado?

LM – Nos parece que foram execuções, não é? Sumárias... Perigosas... E você entende, e há de convir, que foram personalidades, isto é, as pessoas devem ter pensado: “Ah, se aconteceu com eles, imagine comigo, um cidadão comum”. Tenho sempre falado sobre isso e nós já avançamos em alguns aspectos que puxamos. Hoje vejo muito ‘pai’, ‘padrasto’, ‘tio’, mas nós puxamos e fizeram o compromisso conosco e honraram, que foi a questão da Primeira Academia da Polícia Civil, também a questão da Polícia Militar. E [assumiram ainda] que vão fazer sim a Segunda Academia da Polícia Civil e também da Polícia Militar. Serão pelo menos quinhentos policiais militares a mais. O governo está comprometido e nós vamos cobrar! Lógico, eu tenho o papel de cobrar. Eles falaram que irão fazer e é bom deixar claro. Agora, bicho... Segurança Pública é feita por todos os níveis de governo. Fui criador do anteprojeto e do projeto da Guarda Municipal aqui em Porto Velho. Por quê? Porque diminuem os delitos, as contravenções e os crimes. É guarda patrimonialista, é para cuidar do nosso patrimônio, do nosso acervo.  Mas é uma guarda que circula, que pode ser armada ou não, isto é, inibe a criminalidade. Agora, Segurança Pública se faz com boa iluminação na cidade, com praças e espaços públicos adequados, com conscientização nas escolas, com ronda ostensiva,  enfim, são todos esses aspectos que formam a Segurança Pública. Temos investido, apoiado o Instituto de Identificação, polícia técnico-científica, a própria Polícia Civil. Agora mesmo estou junto com o presidente da Assembleia Maurão [de Carvalho, do PMDB] tentando adquirir por emenda a aquisição de mais de duzentas novas pistolas para eles, tamanho é o sucateamento da Segurança Pública. E acredito muito que isso ocorrerá. O governador mandou uma mensagem para a Assembleia Legislativa no início deste ano informando que dará prioridade à Segurança Pública e a gente acredita muito nisso. A minha cobrança é intermitente, bicho! Ela é diária. E assim vou fazer, acreditando que o governador irá trabalhar. Eu  dou esse voto de confiança a ele. Acho que tem condições de fazer bastante pelo setor. Gosto e admiro o governador pela forma visionária e progressista, mas vou cobrar como sempre fiz.

Diálogo ou agressão física: depende do oponente

RD – No final do ano passado houve uma manifestação pacífica de policiais civis na Assembleia Legislativa em relação ao PCCS da categoria, embora tenha havido momentos de animosidade, inclusive envolvendo o senhor. Que fim levou essa questão e por que houve esse breve momento de exaltação, deputado?

LM – Bem... Veja bem: todas as categorias querem e merecem melhorias. Diga-se de passagem, pra você ver como a gente luta e tem de atender as demandas que aqui chegam. Elas chegam e nós não podemos escolher. Consegui construir um Plano de Cargos do Sistema Prisional, dos agentes e socioeducadores que são sofredores. Tá muito defasado! Não tem munição, bala, não tem gestão, secretário, não tem nada! E nós conseguimos avançar. Estipulamos um prazo através de recomendação legislativa que eu pedi. O secretário teve de assinar  se comprometendo entregar o Plano à Assembleia Legislativa em noventa dias. E ele entregou porque senão iria incorrer em crime de responsabilidade. Entregou e nós, lógico, a prerrogativa de atuar é sindicato, não sou  eu. Mas nós entregamos ao sindicato, mas as coisas infelizmente acabaram não evoluindo. Acabaram estagnadas talvez por dificuldades. Mas a Polícia Civil avançou muito. Eles [membros da categoria] conseguiram integralizar a periculosidade, que era uma demanda de dez anos. A Polícia Civil tem tido muita dificuldade e é bom que o governo entenda essa necessidade. E a gente vai continuar a lutar. Ainda mais agora que tem deputado eleito da classe dos agentes penitenciários. Vamos unir forças para que consigamos o Plano de Cargos dos agentes penitenciários e socioeducadores.



RD –
E por que o senhor quase chegou às vias de fato?

LM – Em relação à animosidade, não é isso... A gente não pode se travestir de um personagem. Cara, eu não levo desaforo pra casa. Porque acho que o que é certo é certo e o errado é errado. Então muitas vezes quando vejo a população sendo prejudicada, cara, me compadeço e estou junto. Agora, a pessoa utilizar, por conta de pedido de outra liderança que entende que é meu adversário, a sessão para me xingar, isso pra mim não funciona. Eu resolvo do meu jeito. Chamei ele [o cidadão que o ofendeu] para ir lá pra fora [da Assembleia] para resolver do meu jeito, não tem problema. Assim como eu fiz na Câmara Municipal com um vereador. Não tem problema. A gente resolve. Eu jogo com a arma que me derem. Se for no diálogo, a gente vai no diálogo. Eu gosto e a gente tem de ter muito cuidado, pois somos exemplos. Agora, se quiser resolver de outro jeito, eu ‘tô’ à disposição e não tem problema. Acho que é assim que tem de ser feito.

Futuro

RD –
Informações dão conta de que o senhor pretende sair do PTB para concorrer à Câmara Federal em 2018. Isso procede?

LM – Acho que tá muito prematuro pra discutir qualquer questão. Como disse antes, eu converso com as pessoas. As pessoas que tem de demonstrar o caminho. Se de repente não vou ser candidato a nada, é a nada. De repente estadual de novo, já que estou contribuindo, em que pese – e sempre digo isso publicamente até na televisão e na rádio – sou contra pessoa ficar quatro, cinco ou sete mandatos. Porque o ser humano se acomoda. Não é porque é bom ou mau, se tem fé ou má-fé. Ele se acomoda! Todos nós estamos suscetíveis a isso.

RD – Como vê esse processo gradual de moralização na Assembleia Legislativa, alvo de tantos escândalos em outras legislaturas, inclusive a nível nacional?

LM – É... Em relação aos trabalhos de investigações, é muito claro, tem ser feito como sempre foi. E essas investigações são feitas com muita qualidade. Nós temos um Tribunal de Contas que cada vez mais tem se modernizado e investido em material humano, junto com a tecnologia de informação. Faz um grande trabalho em benefício dos municípios. Ministério Público da mesma forma, faz um trabalho importantíssimo de contrapeso, de balancear, atender e dirimir os problemas de quem se sente lesado. É fundamental a atuação desses órgãos à sociedade civil como um todo. Temos de trazer tecnologia, investir no pessoal e na máquina pública para estarmos à altura. Não é porque acontece só em Rondônia. É porque aqui os órgãos estão mais atentos e ainda bem. Isso de alguma maneira nivela por cima também a gestão e atuação de todos os parlamentares e pessoas envolvidas na vida pública. Acredito muito que esta legislatura está sendo melhor do que a última. E que a próxima, quem sabe, será ainda melhor. A gente não tem de procurar só ‘pelo em ovo’. Não! A gente não precisa só entender que a ação midiática é importante para as investigações. Não! A gente tem de acompanhar no dia a dia. Perceber o que cada um faz e se conscientizar que o bom parlamentar é bom por quatro anos. Ele não é só bom no discurso e no convencimento para se reeleger ou se candidatar a outro posto.

RD – Obrigado, deputado.

LM – Eu que agradeço, portas abertas.



 

Autor / Fonte: RondoniaDinamica.com

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